CORRIGINDO AS MENTIRAS DO NEW YORK TIMES
 

 
Senhores do New York Times: vocês não sabem nada sobre a Colômbia


Vanessa Vallejo


Assim começa o editorial do dia 24 de maio do New York Times (NYT) intitulado: "A paz colombiana é demasiado valiosa para abandoná-la". Só nessas três linhas do primeiro parágrafo já fica completamente claro o nível de ignorância dos jornalistas do diário norte-americano sobre a situação da Colômbia. Na Colômbia não houve um "conflito de meio século": o que ocorreu foi que durante 50 anos uns guerrilheiros, que mais que isso são narco-traficantes, violadores, seqüestradores e assassinos, torturaram a população colombiana. Essa tortura terminou quando o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez implementou o que o NYT tanto critica: a segurança democrática.


A palavra "conflito" é muito usada nos meios de comunicação para se referir às ações violentas das FARC, mas o termo é incorreto e leva a análises erradas da situação. Pergunto aos senhores do NYT: se um delinqüente chega a uma casa, rouba e assassina o dono, vocês diriam que há um conflito entre o criminoso e o dono da casa? O que temos é um verdugo e uma vítima. Utilizar a palavra "conflito" põe no mesmo nível o assassino e o inocente. E se essa idéia de que são iguais se transfere aos fatos, que é o que está ocorrendo na Colômbia quando se dá aos cabeças guerrilheiros cadeiras no Congresso, o que temos é a garantia de mais violência. Onde não há justiça é impossível que haja paz real.


Dizer que o "conflito" matou ao menos 220.000 pessoas, em vez de falar dos mortos das FARC, é um descaro. O NYT também diz que, graças ao acordo, haveria paz na Colômbia. Para a maioria dos colombianos foi tão evidente que não seria assim que, apesar de toda a propaganda que se fez utilizando todo o poder do Estado, no plebiscito de 2 de outubro de 2016 rechaçamos os acordos de Havana que o jornal norte-americano tanto louva.


Graças a esses acordos, cabeças das FARC que cometeram todo tipo de crimes atrozes estão hoje no Congresso, guerrilheiros que recrutaram e violaram crianças não pagarão um dia de cárcere, e a extradição dos narco-traficantes da guerrilha será praticamente impossível. Por conta dos acordos de Havana, ser guerrilheiro é algo desejável, há bandidos que pagam para que as FARC os incluam em suas listas e assim não têm que pagar um só dia de cárcere. Esse é o acordo que o NYT aplaude&hellip


Quem escreveu o editorial de 24 de maio acredita que assim se consegue a paz? Seria capaz de promover que nos Estados Unidos violadores em série ocupem um assento no Congresso? Não creio. Afortunadamente nos USA se combate sim os criminosos de maneira frontal, como deve ser. Se efetivamente o NYT acredita que tudo isto é um sacrifício válido para que os delinqüentes não saiam cometendo delitos, também se equivoca. Desde a assinatura do Acordo, segundo a ONU, mais de 57.800 pessoas engrossaram os registros dos deslocados na Colômbia. As pessoas devem ir-se de suas casas porque são ameaçadas, porque tomam suas terras e porque os combates entre grupos narco-traficantes - inclusive as FARC - põem suas vidas em perigo.


Os líderes sociais que estão sendo perseguidos e assassinados, quase todos estão em perigo porque lideram processos de restituição de terra. As FARC, o ELN, os "paramilitares" - o nome está mal utilizado porque não falamos de matadores a serviço do Governo - e demais grupos dedicados ao narco-tráfico não querem devolver esses terrenos e deixam claro matando aos que se empenham em buscar reparação e justiça.


Um dado que deixa claro que o acordo não serviu para nada, é que neste momento, quase três anos depois, há mais de 200.000 hectares de coca no país. Quem continua cometendo estes delitos? Quem são os donos de toda essa coca? Só há duas opções: a primeira é que fizemos a "paz" com as pessoas equivocadas, as FARC não eram os maus e por isso os cultivos de droga não diminuíram, tampouco o fez o deslocamento e os assassinatos continuam acontecendo nos mesmos lugares.


Os Estados Unidos pediram Jesús Santrich, um dos chefes das FARC, em extradição, porque agentes encobertos da DEA o gravaram pactuando o envio de droga para o país do norte. No vídeo que todos os colombianos pudemos ver, está tudo completamente claro: depois dos acordos os líderes das FARC continuaram com sua ação criminosa. Outros líderes das FARC, como "El Paisa" e Iván Márquez estão escondidos, o primeiro porque ao que parece não quer nem sequer fingir tudo isso da "paz" e está muito dedicado a seus negócios ilícitos. O segundo porque tem medo de que apareçam provas contra ele - como as de Santrich - e acabe extraditado ou encarcerado na Colômbia. E isso porque inclusive alguns meios de comunicação colombianos já asseguram que os Estados Unidos teriam pronta a solicitação formal de extradição de Márquez.


As coisas estão claras: as FARC continuam as mesmas. O NYT propõe que os piores delinqüentes da história do país recebam "Senado por cárcere" e que além disso lhes permitamos continuar delinqüindo? O diário norte-americano também reclama que o presidente Iván Duque descumpriu o acordado em Havana, de dar aos guerrilheiros educação universal, vias de comunicação e empregos, entre outras coisas. Seguramente o NYT não sabe que os colombianos que sim, trabalhamos, e que nunca matamos ninguém pagamos as "zonas de reincorporação", onde os guerrilheiros têm casa e comida. E muito provavelmente tampouco haverão se inteirado de que esses lugares ficaram cheios de mulheres e crianças porque os guerrilheiros voltaram às atividades ilícitas que lhes deixa bastante dinheiro. É possível que o que os colombianos temos pago até agora pelo acordo de Havana não é nem a metade do que se pactuou, porém, por acaso ser pobre dá licença para matar e fazer o que os membros das FARC fazem?


Não se pode justificar um assassino dizendo que é pobre e que Duque não lhe deu um trabalho. Tampouco  pode-se pedir aos colombianos, que em sua maioria têm salários muito baixos, que mantenham os guerrilheiros e suas famílias durante anos. Neste país há que desenvolver um plano para que os ex-guerrilheiros possam se manter por si mesmos, que possam ser produtivos e seguir adiante. A chave para lhes permitir se valer por si mesmos é mais mercado e mais liberdade econômica. Criar, por exemplo, zonas nas quais as empresas possam se estabelecer e não paguem impostos em troca de que contratem ex-guerrilheiros.


Entretanto, é necessário ressaltar que muitos guerrilheiros, embora tivessem casa e comida, decidiram continuar delinqüindo porque esse foi o plano desde o princípio. No dia em que os guerrilheiros supostamente entregaram as armas, nenhum meio de comunicação pôde entrar para corroborar a entrega. O plano das FARC sempre foi entrar no Congresso enquanto mantinham seu braço armado e seus negócios de narco-tráfico. Porém, o diário norte-americano parece tratá-los como vítimas. O NYT sugere que os guerrilheiros das FARC queriam sim a paz, mas voltaram às armas porque não têm um prato de comida.


Finalmente, o diário diz que o presidente Donald Trump deveria "se assegurar" de que Duque "se atenha" aos acordos e não modifique a justiça transicional para que assim cheguem mais investimentos internacionais à Colômbia e haja uma paz duradoura. É tudo o contrário! Que investidor internacional verá com bons olhos um país no qual delinqüentes - inclusive pedidos em extradição pelos Estados Unidos - fazem parte do Congresso e legislam? Como investir em um país com 200.000 hectares de coca cultivadas por malandros de envergadura internacional, e como pôr uma empresa em um lugar onde a justiça não funciona e está comprada pela esquerda e os guerrilheiros que parecem ter via livre para fazer o que querem?


O NYT não sabe nada sobre a Colômbia. Se algo pode arruinar este país é precisamente o acordo de Havana que o diário norte-americano tanto defende. Entretanto, não se pode esperar muito de um diário que, entre outras coisas, ocultou durante anos o genocídio que Stalin cometia na URSS.


Tradução: Graça Salgueiro