VW VI - AVENTURA AMAZÔNICA E TRISTE FIM
 

 

RIO CRISTALINO

Jacy de Souza Mendonça



03/03/2019



Em 1973, acompanhava Sauer em visita ao Ministro do Interior, Rangel Reis, que falou sobre o interesse de Geisel pelo desenvolvimento da Amazônia de forma empresarial. Contava com a Volkswagen. Ordem, travestida de cortesia. Compensação: a cada cruzeiro investido seriam dedutíveis três do imposto de renda devido. Sauer, apaixonado pelo campo, interessou-se, sem contar com o apoio da Alemanha nem do Diretor Financeiro local, que toleraram tudo só pelo benefício tributário.

Um escritório de Belém elaborou o projeto. Técnicos foram ouvidos sobre a localização e demarcação de 140.000 hectares em Santana do Araguaia, feitas de avião, pois o acesso à floresta era impossível. Integrei o grupo que efetuou a compra. Um corretor de imóveis colheu a opção de vários fazendeiros na região, ocultando a interessada para evitar a inflação do preço. O Departamento Jurídico VW cuidou da documentação.

Embora a lei exigisse a preservação arbórea de 50% da área, o projeto, cuja tramitação na SUDAM acompanhei, preservava 60%. A relação de 1 para 3 cruzeiros não foi cumprida pelo governo. As viagens à região eram feitas em avião monomotor pilotado pelo corretor, seu proprietário. Certo dia, perguntou-me ele, lá no alto, se seria capaz de reconhecer a cor do gado que pastava em uma clareira. Disse-lhe o pouco que consegui visualizar e ele concluiu que era a fazenda de fulano e, portanto, estávamos próximos. Mais tarde, apareceu com novo aparelho, mais moderno. Em uma das viagens, com mais três dirigentes VW, tivemos que aterrissar no aeroporto de pequena cidade. Ao descer, fomos cercados por policiais armados exigindo identificação, pois ali estava uma divisão da aeronáutica. Nenhum dos passageiros, exceto eu, tinha documentação. Fui levado para uma sala para informações. Percebi que os militares estavam escutando, pelo rádio, um jogo de futebol - Gre-Nal! Aproveitei o gancho e revelei minha condição de gaúcho e colorado... Soube, então, que eram quase todos gaúchos, pertencentes ao destacamento aeronáutico de Canoas/RS, cidade onde eu fora Promotor de Justiça durante 12 anos. Exibi minha credencial e fomos liberados... Meses mais tarde, o avião do corretor caiu. Morreu ele e todos os passageiros, entre os quais 2 Diretores de outra grande empresa. Soube-se, então, que ele não tinha habilitação para pilotar aquele tipo de aparelho e os planos de voo que exibia eram tirados a cada viagem de um bloco em branco que possuía, pré-aprovados por um responsável.

Sauer buscou pareceres de técnicos nacionais e estrangeiros. Um suíço encarregou-se do planejado rebanho de mais de 100.000 cabeças. O início não foi fácil, pois era necessário andar pela mata para a abertura da clareira. Os trabalhadores eram convidados em aldeias às vezes distantes. Os que aceitavam, exigiam pagamento antecipado de parte dos salários, para deixar com a família, enquanto não tinham condições de levá-la. Moravam, nos primeiros dias, em barracas que levantavam com folhas de bananeira. Em pouco tempo surgiu um lindo local. Descobriu-se, no meio da mata, o Rio Cristalino, do qual tenho uma tela pintada por minha esposa. Aproveitei o fato para sugerir a razão social da empresa, aproveitando a imagem positiva da Vale do Rio Doce: Fazenda Vale do Rio Cristalino. Para os empregados foi edificada uma vila, com casas de alvenaria de três dormitórios, água, luz e terreno para criarem galinhas, porcos, animais domésticos, formarem uma horta e pomar. Foram construídos 155 km de estradas, inúmeras pontes, açudes e uma pista para avião. Na entrada da Fazenda, um hospital, com atendimento fundamental prestado por médicos, dentistas e enfermeiros levados de São Paulo.



Ali ficavam de quarentena os contratados. Em caso de doença grave ou acidente, o avião da companhia levava o paciente aos hospitais de cidades próximas. Instalou-se uma serraria e uma oficina mecânica. Havia uma bela casa de hóspedes e uma encantadora escola em cuja inauguração crianças que costumavam andar nuas, descalças, trajavam uniformes, usavam sapatos pela primeira vez na vida e cantaram o Hino Nacional enquanto o Ministro hasteava a bandeira ao som de araras e tucanos que cortavam os céus. Comovente! Em uma das vezes em que lá me hospedei, tive deixar a porta do quarto e uma do roupeiro entreabertas, pois era casa de um filhote de jaguatirica domesticado. Acordei-me pela manhã com o ronco de minha acompanhante embaixo da cama. Tornou-se amiga. Tenho foto dela mordendo suavemente meus dedos.

De volta a São Paulo, cada mordida daquelas agulhas apresentou-se infectada e eu com uma febre terrível. Mas foi lindo!

Todos os empregados tinham Carteira do Trabalho, contribuíam para o INSS e seus direitos trabalhistas eram rigorosamente respeitados, inclusive o FGTS. Uma vez ao mês um fiscal do Ministério do Trabalho examinava as condições de trabalho, atualizava as Carteiras e fornecia outras para os novos empregados.

Assim cresceu a Fazenda, chegando a 10% do planejado e a um plantel de oitenta mil cabeças, todo controlado por computador (pela primeira vez no Brasil). Eram feitas experiências com animais, frutas e legumes. Um frigorífico foi instalado por empresários nas imediações, visando à exportação para a Europa.

Aberta a clareira com a necessária derrubada de árvores, os troncos eram estocados e o rebotalho queimado, pois não havia onde colocá-lo. Um ambientalista passou então a escrever que o capital estrangeiro estava queimando a Amazônia. Acusava os alemães de provocarem o segundo maior incêndio da história, só perdendo para Nero em Roma. Como a queimada era necessária e frequente na região, indaguei como ele identificara o que era VW? Pelo símbolo VW nas nuvens? Recomendei-lhe também retificar a informação, pois, como Roma não ocupava área daquelas dimensões, este deveria ser o maior e não o segundo incêndio.

Em 1983, um bispo da região começou a acusar a VW de trabalho escravo, publicando a acusação na Alemanha. Alegava que não havia meios de transporte para os empregados saírem da fazenda quando queriam (de fato, não havia navio, trem nem ônibus) precisavam pedir carona ao caminhão que saía de lá dizia que os trabalhadores eram obrigados a comprar tudo o que necessitavam no armazém da Fazenda (realmente, não havia shopping, por isso foi instalado um armazém onde estavam à disposição os produtos necessários a eles).

A intensidade das acusações foi tal que a matriz decidiu vender a Fazenda, abandonando o que investira. Os trabalhadores voltaram a viver em malocas, sem hospital nem escola, sem trabalho (com ou sem Carteira do Trabalho) nem salário... as crianças voltaram a andar nuas, sem sapatos nem escola...

O mesmo que acontecera com Ford e a borracha e com o milionário americano Daniel Ludwig, que sonhou aplicar sua riqueza, antes de morrer, na região do Jari, na plantação de arroz e florestamento, para abarrotar o mundo de celulose e alimento. Tendo descoberto ouro em suas terras, passou a extraí-lo respeitando a legislação brasileira, o que praticamente ninguém fazia nem faz, mas não resistiu às críticas abandonou tudo e hoje lá, como na Cristalino, a área é de conflito. Em 1986, a VW vendeu o projeto. Vendeu e não recebeu...