VOLKSWAGEN DO BRASIL - VW I - A CHEGADA
 

 

VW I - A CHEGADA

Jacy de Souza Mendonça



21/02/2019



Até hoje não sentira o menor desejo de escrever sobre meus 25 anos na VOLKSWAGEN DO BRASIL. Agora, aproximando-me do final da vida, instado por amigos, sou levado a iniciar uma série sobre esse tema, com o exclusivo propósito de deixar minha contribuição para a história dessa grande empresa, à qual tanto devo. Sei que o assunto não será do interesse de boa parte de meus leitores, mas...

Em fevereiro de 1969, ocupava dois cargos públicos no Rio Grande do Sul, conquistados por concurso, nos quais me sentia plenamente realizado: Promotor de Justiça há 15 anos e titular da cátedra de Filosofia do Direito da Universidade Federal do RS, onde lecionava há 10 anos. Foi nessas condições que sofri o impacto de um convite para encontrar-me com o Presidente da VW, Rudolf Leiding. Tudo decorreu da iniciativa de um ex-aluno e amigo muito querido, Milton Löff. Residia ele, então, em Campinas, onde trabalhava como assistente de Wolfgang Sauer, Presidente da BOSCH. Graças a esse relacionamento, conheci Sauer. Leiding gostava muito de Sauer e pediu-lhe a indicação de um nome para dirigir o Departamento Jurídico da VW. Ele apontou meu nome, antecipando, porém, que eu não abandonaria minhas atividades. Assim surgiu o convite para a entrevista, com passagem de avião à disposição para mim e minha esposa.

No dia e hora aprazados, Sauer colocou-me frente a Leiding e, feita a apresentação, abandonou o recinto. Como havia me programado, agradeci a honra do convite que não podia aceitar expliquei que me sentia realizado nos dois cargos públicos conquistados por concurso e só estava ali para cumprir o dever de cortesia de afirmar isso pessoalmente. Leiding pediu-me licença para avançar no assunto e indagou sobre o que fazia, quanto ganhava e quais minhas expectativas de carreira. Forneci-lhe os dados solicitados e expliquei que não tinha pretensões futuras, o que causou surpresa, pois eu tinha apenas 39 anos de idade. A conversa prolongou-se em detalhes que não cabem nessa síntese e, ao final, ele lançou-me a proposta salarial que era maior do que o dobro da soma do que eu ganhava. Naquela hora, veio à minha mente que eu não tinha o direito de negar à minha esposa e, então, às quatro filhas as vantajosas condições de vida que me eram ofertadas. Partimos, então, para alguns detalhes (mai

s atraentes ainda), ao final do que aceitei o convite. Por isso, quando me perguntam como vim para a VW respondo que fui comprado.

Não foi nada fácil explicar à minha esposa, ainda em São Paulo, a mudança de decisão. Mais difícil ainda foi obter do Diretor da Faculdade de Direito e do Procurador Geral do Estado do RS a exoneração que lhes solicitei. Por iniciativa deles fui então colocado em disponibilidade não remunerada nos dois cargos, situação que perdurou uns dez anos.

No dia 1º de abril de 1969 assumi a função de Gerente do Departamento Jurídico da VW e nunca mais julguei esta data como dia da mentira ou dia dos bobos.