CENÁRIO DA VENEZUELA COM A CONTINUIDADE DE MADURO
 

 
Indesejável mas real cenário geo-político venezuelano vindouro com Maduro ainda em Miraflores


* Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido


A julgar pelo que vem sucedendo na Venezuela, o horizonte geo-político da região poderia demonstrar que Maduro e seu séquito em desenvolvimento de um libreto estruturado desde Havana, pela ditadura cubana, estão ganhando espaço por tempo e que, por sua parte, a oposição está se vendo obrigada a chamar para si o caminho das armas cada dia que passa sem que o regime caia, nem que as Forças Militares venezuelanas deixem os castro-chavistas sós, com um conseqüente derramamento de sangue e o desafortunado cenário de uma prolongada guerra civil na qual meteriam o bedelho os poderes geo-políticos, mundiais e regionais.


Muito levianamente, alguns comentaristas opinaram com o desejo de que Maduro cairá logo, e inclusive argumentaram mais com a finalidade de desprestigiá-lo do que por ter conhecimento político-estratégico e geo-político estruturado ao redor de tudo o que se tece na Venezuela para sustentar a narco-ditadura, que o séquito criminoso do socialismo do século XXI está aliado com as FARC, dá passagem ao Hizbolah, é trampolim do narco-tráfico, é títere de Cuba, etc.


Claro que tudo isso é certo e muito mais, mas também é certo que para desarticular essas empresas criminosas legitimadas por um Estado pária e desavergonhado, não requer só palavras e comentários nos meios de comunicação, senão ações políticas, econômicas, sociais, psicológicas e militares.


Desafortunadamente, com o passar dos dias o caso venezuelano parecia tender a se assemelhar ao de milhões de cubanos que fugiram da ilha e se exilaram nos Estados Unidos ou outros países, e desde lá acreditaram que por meio de discursos ou críticas altissonantes a ditadura castrista cairá, que em contraste acaba de completar 60 anos aferrada ao poder e sem alternativas a médio prazo.


Curiosamente os cubanos no exílio sempre esperaram que sejam os Estados Unidos que dêem esse passo, enquanto a "cubanada" vive no exterior sem se organizar para voltar a Cuba dispostos a recuperar a liberdade e levar uma luta de morte, que por sua natureza demandaria sacrifícios, sangue, suor e lágrimas.


O que aconteceu na Venezuela é lamentável porque morreram centenas de inocentes, mas frente a uma empresa criminosa como a que os cubanos castristas e os chavistas venezuelanos montaram, desafortunadamente o feito até agora é pouco, frente ao que vem por diante e que, ao que parece, aponta para o inevitável enfrentamento armado.


Por muitas razões os Estados Unidos não poderiam intervir militarmente em território venezuelano para tirar Maduro e seu bando delitivo do poder. As experiências com saldos negativos no Vietnã, Afeganistão e Iraque, não só forçaram a atitude condescendente de Barack Obama na Síria e Líbia, senão que forçaram a administração Trump a retirar as tropas dessas zonas e que cada país lute em sua própria guerra, para a qual os Estados Unidos lhes daria apoio tecnológico, treinamento e informação de inteligência na medida em que sobrevivam alianças estratégicas favoráveis para os interesses geo-políticos da Casa Branca.


Tampouco é viável instalar bases norte-americanas na Colômbia, onde a sempre oportunista e trapaceira direção política se oporia de maneira escandalosa, enquanto não haja rios de dólares conexos que tapariam a boca de "patrioteiros", esquerdistas e oportunistas eleitoreiros.


E embora o regime brasileiro de Bolsonaro tenha demonstrado afinidade com Trump, os múltiplos problemas do gigante sul-americano tampouco colocariam como prioridade inevitável levar bases militares norte-americanas para seu território, para desde lá derrocar Maduro e a facção criminosa.


A única opção que restaria à oposição venezuelana é o uso da Força Militar em um conflito civil, não só nas marchas, com concentrações multitudinárias e discursos patrioteiros da desunida oposição venezuelana.


Para treinar, dotar e potencializar um braço militar anti-chavista na Venezuela, teriam que recorrer à CIA e aos países sunitas árabes que são reinos ricos ou emirados petroleiros inimigos do shiita Irã, para financiar rebeldes que devem regressar à Venezuela para combater contra o Hizbolah, os Comitês de Defesa da Revolução castro-chavista chamada "bolivariana", o ELN e as FARC, os internacionalistas comunistas que chegariam de todas as partes do mundo e os narcos, aos quais se somariam mercenários que estão acostumados a combater em qualquer guerra e, neste caso, contratados pelo castro-chavismo.


O mais óbvio e provável de esperar é que Maduro ordene prender Guaidó e tome outras medidas repressivas que poderiam desatar o conflito civil. Sem dúvida alguma, quando a situação se complicar Putin instalaria bases militares russas em apoio do "legítimo governo" para atacar os "terroristas" da oposição, tal como fizeram na Síria.


Não é uma simples especulação. É algo óbvio que foi amplamente conversado e faz parte da "guerra fria" que Moscou esboçou há mais de sessenta anos a Washington, mas que por desgraça não interpretaram bem, nem os "pacifistas" democratas norte-americanos nem os idiotas úteis do pacifismo farsante que, para rematar, esbanjam incultura nos quatro pontos cardeais do planeta.


O até agora inevitável conflito armado civil na Venezuela afetaria enormemente a Colômbia, não só pelas implicações nas exportações e importações, o desenvolvimento da indústria petroleira ameaçada por essa guerra, a segurança integral dos moradores da fronteira bi-nacional, senão pela forma habilitante em que as zonas fronteiriças se integrariam de cheio aos teatros de guerra de operações e a presença de atores armados de todos os tipos.


Um dos grandes erros dos "analistas" do problema, é esconder tanto o plano estratégico da ditadura cubana para reviver seu projeto totalitário por meio do Foro de São Paulo, as guerrilhas e as eleições manipuladas, assim como a ignorância estendida acerca da articulação que têm as FARC e o ELN untados até a medula de narco-tráfico, nesse projeto socialista do século XXI.


Em que pese a que os fatos o demonstrem, pululam os opinadores úteis ao plano das FARC que crêem na boa-fé do pacto FARC-Santos. Continuam sem acreditar que o grupo terrorista o que fez foi pôr os cabeças legitimados no Congresso, burlar-se das leis nacionais e internacionais e não purgar cárcere com o engendro jurídico da JEP, aparentar uma inexistente ruptura de Márquez e El Paisa com Timochenko, coordenar o projeto de negociação de paz com o ELN, se apropriar do controle civil das zonas cocaleras, manter intactas as milícias bolivarianas farianas, robustecer o Partido Comunista Clandestino, ter à mão mais de três mil terroristas protegidos pelo Estado como escoltas ou funcionários de segurança privada e exercer o controle geo-econômico mediante as cooperativas comunistas das FARC-Ecomum, que ao mesmo tempo lhes servem de lavanderia de narco-dólares.


Tudo aponta a demonstrar que Iván Márquez e El Paisa estão na Venezuela e que com a viagem de Granda a Caracas, simultâneo com o atentado do ELN em Bogotá, ambos os fatos poderia apontar a que o regime de Maduro urdiu a idéia, as FARC a aperfeiçoaram e apoiaram os elenos, uma célula do ELN realizou o ataque e todos ganharam de acordo com suas conveniências político-estratégicas. As guerras ganham-se determinando em cada passo a capacidade de mais provável adoção do adversário, não com boas intenções, nem suposições pacifistas próximas à indiferença ou à covardia.


Porém, claro, a integração das FARC e o ELN com o regime de Maduro vai mais além da conjuntura do ataque terrorista em Bogotá, como provam os achados nos computadores de Raúl Reyes.


Desde 1999 as guerrilhas das FARC têm treinado terroristas latino-americanos de diversos países na Venezuela, e depois com o conto da paz de Santos, várias estruturas que na aparência estavam contra deixar as armas, se dedicaram em cheio à organização e treinamento de milicianos venezuelanos a serviço da ditadura de Maduro, pela simples razão de que o comunismo está em guerra de classes contra o capitalismo e esta guerra somente se acabará, quando os comunistas tiverem derrotado e destruído os capitalistas.


Então, a presença de Márquez, El Paisa e provavelmente da terrorista holandesa Tanja Niejmejer, concubina de Márquez, na Venezuela, não é algo conjuntural senão um aparte a mais do Plano Estratégico das FARC e das coordenações políticas de alto nível do grupo terrorista com o regime castro-chavista.


Conhecendo de antemão a mentalidade comunista de armar e treinar comitês de defesa da revolução, seria muito ingênuo acreditar na boa-fé das FARC e sua suposta desmobilização derivada da "genialidade estratégica de Santos", assim como ser tão iludido em imaginar que do dia para a noite Maduro entregará o poder, não fará nada contra Guaidó e se irá para o cárcere com a caterva delitiva que o secunda. 


Maduro não cederá de boa-vontade de primeira. Rússia e China intervirão à sua maneira para evitar que os Estados Unidos dirijam a seu bel prazer o cenário geo-político regional. Irã, Síria, Líbano e Iêmen enviariam terroristas internacionais shiitas para atacar objetivos judeus, cristão e de muçulmanos sunitas em toda a região. A Arábia Saudita se atravessaria contra o Irã, e a espiral de violência não só afetaria a Colômbia como poderia se desencadear problemas mundiais de maior magnitude.


Em síntese: os discursos patrioteiros de opositores e amigos de Maduro só servem para dilatar sua permanência no poder do qual não se irá tão fácil pois, entre outras coisas, está instigado pela ditadura cubana que vende a idéia etérea do triunfo do comunismo no continente, sem importar o tempo que isto demanda. De passagem, a ditadura castrista não quer perder essa teta petroleira que minimizou a visualização do drama de miséria que o povo cubano padece há sessenta anos, mascarada com o argumento de que nesse país sobram os médicos.


Se continuarem na retórica ilusionista de que as sanções econômicas e a suposta distância de Moscou e Pequim frente a um regime pária em Caracas podem mudar a situação a favor da democracia venezuelana, haverá Maduro para muito tempo, com a conseqüente obrigação para os militares venezuelanos em desobediência, que falam duro desde o exterior mas como conhecedores das ciências castrenses, sabem que os combates se ganham nos campos de batalha, não com pronunciamentos grandiloqüentes vestidos com uniforme militar desde milhares de quilômetros de distância do teatro de operações, principalmente porque o adversário está armado, cheio de poder e aferrado a um sistema que fortaleceu sua Nomenklatura de corruptos ao redor.


Tal qual é o indesejável mas real cenário geo-político venezuelano vindouro com Nicolás Maduro ainda em Miraflores.


Tradução: Graça Salgueiro

 

 
* Autor de 35 livros e mais de 1.650 artigos de análises relacionados com estes temas de sua especialidade. Presidente fundador do Centro de Geo-política Colômbia, docente universitário e membro de várias academias de História. www.luisvillamarin.com