VW XV - AS GREVES DO ABC

 

AS GREVES DO ABC

Jacy de Souza Mendonça



19/04/2019



O ABC paulista ficou conhecido Brasil afora, acima de tudo, pela sequência de greves promovidas pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Das mais importantes, a primeira ocorreu em maio de 1978, na fábrica da Saab-Scania, mas o sonho dos sindicalistas era parar a Volkswagen, o que conseguiram um ano depois, durante onze dias. A maior dessas greves, no entanto, teve lugar em 1980 e durou quarenta e um dias.

Tratava-se de movimentos de natureza predominantemente política, como oposição aos governos de militares. Da pauta das reivindicações sindicais constava sempre aumento salarial, mas, na verdade, era só uma demonstração de força de seus líderes, pois, já então, os metalúrgicos do ABC eram os trabalhadores brasileiros com melhores salários, excetuados, é claro, os empregados em empresas estatais.

Mesmo antes de assumir a Diretoria de Recursos Humanos, participava do grupo que administrava as greves na VW. Em razão disso, procurei unificar a reação de todas as empresas do setor, coordenando o grupo dos administradores de greves da região. Nessa função, fui até obrigado a receber em minha casa Lula e os então seus advogados, Almir Pazianotto e Maurício Soares, que fugiam de locais acessíveis à imprensa.

Não pretendo escrever sobre as greves em si mesmas, pois a imprensa foi farta nesse sentido, embora colocando-se sempre ao lado dos grevistas. Vou registrar, sem preocupar-me com datas, alguns fatos ocorridos durante aqueles movimentos, que testemunhei e pelos quais não se interessaram os jornalistas.

A grande liderança operária naqueles dias era Lula, líder sindical autêntico, com elevado grau de confiabilidade entre os metalúrgicos (elogios que nunca lhe fiz como político). Durante aquele período, visitou o Brasil Lech Wałęsa
, líder operário polonês que se elegeu presidente da república da Polônia. O diálogo entre os dois transpirou, principalmente a crítica que lhe dirigiu Lula, ao dizer que um líder sindical autêntico jamais deveria deturpar sua atividade envolvendo-se em política... estranho!

O movimento grevista contou com o apoio incondicional da Igreja Católica, que emprestou a matriz de São Bernardo do Campo para servir como local de reunião dos sindicalistas. Seu Bispo chefiou comitiva de trabalhadores a Brasília para encontro com os chefes do governo federal e criou a Pastoral Operária, tudo como apoio aos grevistas. Quando me deparei com Lula falando na missa de domingo, afastei-me do culto.

Como técnica de paralisação, os líderes sindicais organizavam piquetes à porta das fábricas, impedindo fisicamente que nelas entrassem aqueles que assim desejavam. Em uma oportunidade, o próprio Cardeal esteve no piquete da VW, estimulando os sindicalistas. Telefonei-lhe dizendo que não devia ficar à porta do estabelecimento que estava autorizado a entrar no prédio, ir onde quisesse e falar com quem quisesse, a qualquer momento. Reagiu com um discreto muito obrigado. Em outra oportunidade, Lula e Fernando Henrique Cardoso distribuíam panfletos às portas da fábrica, estimulando a parada (tenho comigo a inacreditável foto). Eu mesmo, um dia, quis entrar de carro na empresa e fui obstado pelo piquete ignoraram a informação de que minha presença no estabelecimento podia ser decisiva para a solução do conflito meu motorista tentou entrar, dirigindo o veículo lentamente, com a máxima cautela. Impossível. Um grupo agarrou o carro e balançou-o, para fazer com que capotasse.

Saímos dali e ingressamos no estabelecimento por um local que se encontrava em obras.

Durante uma greve, em determinado momento, fui procurado pelos líderes do movimento que desejavam ingressar na fábrica com seus carros de som, alegando ser a única maneira de comunicação eficiente com os grevistas. Proibi, mas coloquei à disposição deles os equipamentos de som da empresa.

Quando a tensão estava muito elevada, chamei os representantes de fábrica e lhes disse que havia, naquela planta, muitos locais de altíssimo risco que eu não chamaria a Polícia, mas iria responsabilizá-los por todo e qualquer dano resultante do movimento. Passado algum tempo, voltaram e indagaram se eu poderia apontar os locais de risco. Tomei uma planta do imóvel e indiquei-os eles montaram equipes de segurança e cuidaram para que nada viesse a ocorrer.

Tive, certo dia, minha sala cercada por milhares de trabalhadores, mas atravessei o grupo apenas pedindo licença. Está claro que ouvi algumas palavras indesejáveis que fingi ignorar.

Em uma das greves, o mercado estava em baixa, a produção consequentemente tinha caído e contávamos por isso com alguns milhares de trabalhadores excedentes. Preveni os líderes do movimento de que demissões, em tais condições, seriam inevitáveis. Como desprezassem minha advertência, autorizei a dispensa de 120 empregados, o que foi informado pelos quadros de aviso face a inexistência de reação, repeti a lista no dia seguinte e no subsequente. Uma jornalista estranhou aquele número fixo de dispensas, ao que lhe respondi que, atendendo a seu protesto, no dia seguinte seriam 121...

Acredito que esse período, apesar de conturbado e indesejável, tenha tido seu efeito pedagógico e deixado saldo positivo: os dois lados compreenderam que não era esse o caminho para a solução dos desentendimentos e nunca mais se teve movimento assemelhado.