A CRÔNICA CRISE VENEZUELANA EXIGE MEDIDAS DRÁSTICAS

 

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe


Graça Salgueiro


26/02/2019


O dito popular que dá título a esse artigo é tão certo quanto o sol nasce e se põe todos os dias. Entretanto, às vezes esse bem demora tanto a chegar que o dano feito pelo mal já é irreversível. Os padecimentos que a Venezuela vem sofrendo há décadas em mãos de uma tirania sanguinária, mais agudizada de janeiro deste ano até os dias de hoje, parece confirmar que, se não se tomar uma atitude concreta e enérgica já, de nada terão valido os palavrórios tecidos nos incontáveis encontros entre engravatados de punhos de renda que conformam as chancelarias dos países que dizem "apoiar" a oposição daquele país irmão.


Na segunda-feira 25 de fevereiro o Grupo de Lima, conformado por 14 países do continente mais o Canadá, reuniu-se em Bogotá para discutir a recusa e violenta repressão do ditador Nicolás Maduro em receber ajuda humanitária enviada pelo Brasil, Colômbia e Estados Unidos, que deveria ser entregue no sábado 23. 300.000 venezuelanos estão literalmente marcados para morrer, de fome, falta de medicamentos e bala. As ruas da Venezuela estão tingidas do sangue de inocentes que tudo o que desejam é viver com um mínimo de dignidade, liberdade e segurança.


Desse encontro participaram o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, os presidentes da Colômbia (anfitriã do encontro), Panamá e Guatemala. Também estiveram presentes o Secretário-Geral da OEA, Luis Almagro, o presidente do BID, além de representantes de vários países, como a Alemanha, República Checa e alguns países asiáticos além, evidentemente, do presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó. 


Com discursos de ânimo e solidariedade, todos advogavam por uma "solução pacífica e diplomática", diante de um Guaidó atônito que vê seu povo morrer a cada dia, enquanto o tirano se fortalece por ter o controle de todos os órgãos governamentais e permanecer impávido no palácio de Miraflores. Pence instou os participantes a bloquear os ativos da petroleira PDVSA e ofereceu uma quantia vultosa de dólares para que os países pudessem ajudar a Venezuela.


Das resoluções resultantes desse encontro apenas o item 5 me pareceu justo e necessário. Nele, solicitam à Corte Penal Internacional que considere a grave situação humanitária na Venezuela, a violência criminal do regime de Maduro contra a população civil e a proibição da entrada da assistência internacional com ajuda, o que constituem crime de lesa-humanidade. O resto do texto segue a hipocrisia diplomática.


No sábado 23, data que Guaidó estabeleceu para a entrada dos caminhões que traziam medicamentos e  comida, Maduro fechou as pontes que ligam Venezuela e Colômbia e a passagem da fronteira entre Brasil e Venezuela. Houve confrontos violentos nessas fronteiras e o saldo de mortos e feridos é alarmante: 25 mortos, mais de 80 feridos, alguns hospitalizados em estado grave. Na cidade de Santa Elena de Uairén, que faz fronteira com Pacaraima, Maduro mandou soltar criminosos das penitenciárias e os armou até os dentes para que "massacrassem" os indígenas da etnia Pemón. Em Cúcuta, na Venezuela, dois caminhões que forçaram a entrada na ponte Tienditas que faz fronteira com Táchira, foram incendiados. A população tentou salvar o que pôde mas a perda foi incalculável. Ali havia, além de comida, medicamentos de uso continuado para pacientes renais crônicos e oncológicos, mas Maduro e seus esbirros afirmavam, primeiro que continham comida podre, e depois, que eles estavam vazios, que o próprio povo os havia queimado para chamar a atenção do mundo.


A Cruz Vermelha Internacional não se prontificou a intermediar a entrada dessa ajuda porque, para eles, seu socorro só deve vir em "calamidades naturais", como terremotos, deslizamentos ou enchentes. Na verdade essa recusa é por omissão criminosa, porque não querem ficar mal perante o regime.


Mesmo com tudo isso fartamente documentado e divulgado pelas redes sociais, em fotos e vídeos, a diplomacia do Grupo de Lima não se atreve a tomar uma ação enérgica, militar, para depor esse assassino. A Venezuela tem quase 3.000 generais, almirantes e brigadeiros, que ascenderam a esses postos em troca de sua fidelidade canina não ao país, mas a Maduro. Eles recebem polpudos salários e a maioria faz parte do "Cartel dos Sóis", beneficiando-se dos lucros do narco-tráfico. Além disso, o problema da Venezuela não é apenas derrubar um ditador autoritário, mas um país com ocupação de forças narco-terroristas, como as FARC e o ELN da Colômbia e o Hizbolah, além da ditadura cubana que fez da Venezuela seu satélite, como na antiga URSS.


Não se cura câncer com chá de camomila. Do mesmo modo, Maduro não vai largar o poder com pedidos gentis ou com bloqueio de ativos. Ele só sai com uma ação enérgica, efetiva e concreta. Foi isso que Guaidó quase implorou naquela reunião, e a sensação que me ficou foi de ricos soberbos, que querem parecer generosos, mandando seus serviçais darem esmola a um mendigo porque ele mesmo não quer ver aquela imagem horrenda nem sentir o fedor do miserável. 


A Venezuela não precisa mais de conversas e diálogos. Essa hora já passou, é isso que clama aquele povo e oxalá algum poderoso escute e atenda, antes que não se possa fazer mais nada por aquela gente e seu país seja totalmente saqueado e destruído.

Artigo escrito com exclusividade para o Jornal Inconfidência de Minas Gerais