PREVISÕES PARA A VENEZUELA

 

Guerra de nervos, estratagema de dilatação e suposta intervenção yanqui na Venezuela


* Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido


A cada dia mais tensa situação social, política, econômica, diplomática e de segurança da Venezuela, derivada da intransigência do espúrio regime castro-chavista de Maduro e a pressão internacional que reconhece Guaidó como presidente interino, está configurando um drama humanitário ensombrecido por uma guerra de nervos de fundo calado geo-político, o estratagema de dilatação das partes interessadas e a ameaça de uma intervenção militar norte-americana para restaurar a democracia nesse país.


A guerra de nervos que a Venezuela vive, guerra na qual a principal vítima é a população mais vulnerável, está acumulando todos os elementos necessários para que a situação exploda como uma panela de pressão submetida a temperaturas superiores às especificações de suporte. Enquanto o regime de Maduro segue ao pé da letra os manuais de guerra psicológica soviética orientados para a idolatria de um tirano e a submissão ciega de um povo que pode se lançar à morte em nome do anti-capitalismo, as democracias ocidentais utilizam o cerco diplomático, a pressão econômica e as táticas de guerra psicológicas da OTAN enfocadas em ganhar mentes e corações a favor da livre empresa, da liberdade de movimento, da liberdade de expressão e da necessidade de derrocar o regime autoritário.


A grandes riscos trata-se de uma re-edição da guerra fria entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos, durante quatro longas décadas depois de terminada a Segunda Guerra Mundial, quando a guerra de nervos pendia da ameaça do uso da força nuclear. Por circunstâncias do destino e a miopia geo-política dos dirigentes venezuelanos de "direita" e em geral dos latino-americanos democratas que foram coniventes com a ditadura cubana por mais de seis décadas, a Venezuela hoje se converteu no teatro de operações de uma disputa geo-política regional e mundial que já inclui não só duas potências, senão que atrai com imprevisíveis conseqüências Rússia, China, Irã e Turquia contra os Estados Unidos e que por extensão pode comprometer Israel, OTAN, União Européia, Arábia Saudita e a vizinhança dos venezuelanos.


Em meio dessa guerra de nervos, que tem em um lado um país rico em hidrocarburos e elevado potencial turístico, mas empobrecido pela inaptidão de seus governantes e a inoperância da economia estatizada, cada um dos atores geo-políticos imersos no assunto vieram jogando as cartas político-estratégicas à sua comodidade. A defesa de cubanos e castro-chavistas é de que o regime espúrio de Maduro é uma revolução socialista, popular e supostamente conta com o apoio total do povo, mas que foi vítima da guerra econômica, do bloqueio, do imperialismo yanque, etc., etc., e que, portanto, lutarão com dignidade revolucionária comunista e triunfarão.


Desde os Estados Unidos, Donald Trump tenta mudar o foco da atenção das complexidades internas que sua administração encara frente a avareza de poder da casa Clinton, que dois anos depois de haver perdido as eleições presidenciais não aceita a derrota nas urnas e insiste por todos os meios em derrocar Trump, sem importar qual seja o destino dos Estados Unidos e sua liderança no entorno democrático do mundo. Impera recuperar o poder para os democratas. Para que? Não importa. O essencial é tirar Trump da Casa Branca.


Algo ou muito de parecido com o que sucedia na Roma imperial. Para rematar, Trump tampouco ajuda a aclimatar a concórdia e a busca da unidade nacional, senão que mediante comentários via Twitter e decisões autoritárias joga gasolina ao fogo, mediante uma estratégia desafiante e emocional sobre um setor do eleitorado republicano que o segue mais por impulso do que por raciocínio.


Desde Havana a ditadura cubana, acostumada a viver como parasitas de ajudas externas e de passagem martirizar seu povo que em seis décadas não conheceu a liberdade, aposta em que o longo cultivo de 20 anos de estruturas comunistas de defesa da revolução chavista desatem na Venezuela a, para os radicais de esquerda latino-americanos, "genial idéia" do che Guevara de criar mil Vietnames em mil cenários. E para isso contam com setores corruptos da Força Armada Venezuelana, os delinqüentes armados dos círculos bolivarianos, os cartéis do narco-tráfico, as FARC, o ELN e os internacionalistas que foram treinados pelas FARC e ELN e os cubanos.


Além de centenas de terroristas islâmicos do Hizbolah, enviados pela teocracia iraniana não para apoiar Maduro mas para projetar desde a Venezuela a guerra de morte contra o sionismo, contra os sunitas e contra os Estados Unidos, portanto, muitos objetivos lhes seriam válidos para a sua guerra e interesses geo-políticos particulares.


Desde Moscou e Pequim, o assunto se olha com mais prospectiva político-estratégica e projeção geo-política, geo-econômica e geo-estratégica para os interesses a longo prazo da Rússia e China. Interessa a ambas as potências controlar fisicamente a privilegiada posição geográfica da Venezuela com bacia no mar do Caribe, próxima ao canal do Panamá, próxima da Nicarágua, vizinha da Colômbia e do Brasil, com inumeráveis potencialidades eco-turísticas, rica em petróleo e terceiro-mundista. É um apetitoso botim ao qual foram cooptando sistematicamente com armas e empréstimos impagáveis, nos quais aplicariam a teoria da lógica econômica de Adams: "A melhor forma de submeter um país é endividá-lo e ajudar a evitar que pague"


Nessa ordem de idéias, Rússia, China, Irã e Cuba apostam em dilatar para que a revolução armada socialista prospere o caos que lhes permita tomar posse na Venezuela, em nome da defesa do "governo legítimo". Algo parecido ao que a Rússia fez na Síria. E de passagem auspiciam, mediante trabalhos de guerra política no mais alto nível, graças às "contradições políticas internas" dos Estados Unidos, derivados da insuperável aflição da senhora Clinton, esperando que oxalá isto redunde em uma crise similar ao Watergate e que desemboquem na queda de Trump, com o regresso de uma política externa da Casa Branca condescendente e sem clareza como a de Carter, ou sinuosa como a de Bill Clinton e Obama.


A resposta da contraparte é insuficiente. O Grupo de Lima, auspiciado pela Colômbia, utiliza a pressão diplomática porque conta no momento com o respaldo de Trump, mas se chegar a prosperar a saída do magnata como desejam ardentemente os democratas radicais e obcecados, todo arcabouço anti-chavista ficaria em suspenso, com a realidade de um conflito geo-político regional financiado pelo narco-tráfico e auspiciado pela Rússia, China e Irã que tiram a brasa com mão alheia, e instigado pelas FARC e ELN que deixariam reluzir as cartas ocultas de seus pactos de paz e se re-editariam com o apoio de seus sócios, os narco-traficantes.


Por essa importante razão e devido às dramáticas experiências no Vietnã, Afeganistão e Iraque, é improvável que ocorra uma intervenção militar norte-americana. É evidente que o argumento de todas as opções sobre a mesa utilizado por Trump aponta mais para um estratagema coativo do que para uma realidade imediata, e nesse sentido a vizinhança, particularmente Colômbia e Brasil, têm que pisar com pés de chumbo as decisões inerentes, já que depois de se imiscuir em um conflito armado na vizinhança as evidentes sinuosidades da política interna dos Estados Unidos poderia deixá-los metidos em um problema muito complexo.


Nesse sentido, entre mais tempo demore a entrada da ajuda humanitária e o necessário levantamento político popular contra Maduro até tirá-lo de Miraflores e julgá-los pelos crimes cometidos, mais lucros político-estratégicos e geo-políticos obtêm os conspiradores.


Porém, a saída de Maduro é apenas o primeiro passo para iniciar a reconstrução e unificação da oposição venezuelana, pois após o aparente respaldo da Unidade Nacional a Guaidó, também é certo que jogam interesses partidários internos e a eterna vaidade humana de muitos que estão calados no momento, mas que sem haver assumido os riscos de desconhecer a ditadura e declarar o governo interino, não só aspiram como acreditam que são os verdadeiros destinatários à presidência. E disso sabem muito bem os cubanos, os chineses, os russos e o bando criminoso que dá suporte a Maduro.


Em síntese, a reconstrução da Venezuela é algo mais ambicioso e complexo do que o Plano Marshall, pois a mentalidade tropical latina não é a mesma dos alemães que reconstruíram seu país depois da segunda grande guerra do século XX, nem têm as conotações dos credos de superioridade comercial e industrial que caracterizaram por séculos a Grã Bretanha, nem há uma cultura de interação continental na América Latina similar à que existe há séculos na Europa. 


Neste novo cenário corresponde a democratas e republicanos recapacitar que tantos ódios viscerais e tantas grosserias de ambos os lados, só favorecem aos inimigos da democracia no mundo e aos objetivos dos que há anos viram este continente como a terra prometida, da qual podem expoliar todos os recursos para seu benefício. Há um complexo problema geo-político derivado do que ocorre na Venezuela e este não se resolve nem dilatando pressões com ajudas humanitárias, nem sustentando Maduro, nem deixando intacta a ditadura cubana.


Nem pondo no poder "capitalistas" venezuelanos que re-editem a corrupção anterior ao chavismo que é algo inegável, nem se deixando levar pelos cantos de sereia da paz do ELN e das FARC, nem olhando para o outro lado com o problema do terrorismo islâmico, nem acudindo às estultices de que os Estados Unidos querem o petróleo da Venezuela porque na realidade China e Rússia também o querem, nem aceitando o manjado conto cubano de que o comunismo não prospera por causa do bloqueio yanque, nem acreditando nos falsos nacionalismos detrás dos quais os comunistas se escondem, porque com certeza estourará um paiol de pólvora regional com conseqüências imprevisíveis.


A solução é integral e demanda uma revisão da política interna e externa em todos os países do continente.


Tradução: Graça Salgueiro

* Especialista em Geo-política, Defesa Nacional e Estratégia, o coronel Luis Alberto Villamarín Pulido é autor de 35 livros e mais de 1.650 artigos relacionados com os temas de sua especialidade, muitos dos quais foram traduzidos em vários idiomas e são textos de consulta para teses de graduação, pós-graduação e doutorados em diversas universidades, centros de estudos políticos e academias militares nos cinco continentes. www.luisvillamarin.com