BALANÇO PROVSÓRIO SOBRE A SITUAÇÃO NA VENEZUELA

 

23 de fevereiro: um balanço provisório


Eduardo Mackenzie


Há que reconhecer: Nicolás Maduro ganhou (por agora), por sua brutalidade e falta de escrúpulos, a batalha de 23 de fevereiro. Conseguiu a sangue e fogo queimar e frear a entrada da ajuda humanitária. Reprimiu sem piedade seus compatriotas (14 mortos e centenas de feridos), em vários pontos da fronteira com Colômbia e Brasil, e mostrou que a casta militar não o abandonou (por agora). Porém, o abjeto ditador, e os cubanos que o assessoram, estão longe de haver ganhado a guerra e sabem que suas posições são cada vez mais desagradáveis.


O que ocorreu ontem foi uma derrota de Juan Guaidó e Iván Duque? Dizer isso seria cometer uma injustiça. Guaidó e Duque tiveram um comportamento heróico e fizeram ver ao mundo o nível de barbárie que o regime usurpador alcançou. Maduro está mais isolado do que nunca. A esquerda e o pseudo-progressismo internacional têm cada vez mais dificuldades para apoiar esse verdugo. O 23 de fevereiro demonstrou que os venezuelanos pagam o preço que for por sua liberdade. Essa data expôs também que o da Venezuela não é um conflito de baixa intensidade senão que é um componente importante do conflito Leste-Oeste, embora os espíritos prudentes entrem em pânico só de pensar nesses termos.


As atrocidades de Maduro contra seu povo e os desafios que ele propõe ao resto do mundo não se resolverão sem uma contenda militar internacional limitada. É duro dizer, porém o 23 de fevereiro foi a cruel demonstração disso. É criar ilusões acreditar (como faz Justin Trudeau, que foi quem prejudicou o plano inicial de Guaidó) que a derrubada de Maduro, e dos poderes estatais e os cartéis de droga que o respaldam, se faz com concertos, flores, ajuda humanitária nas fronteiras e promessas de anistias, sem ter, ao mesmo tempo, um respaldo militar não só crível senão em ação. Foi isso que falhou ontem. E a culpa não é do presidente Donald Trump.


Era improvável alcançar as metas de 23 de fevereiro com os meios fixados pela reunião de Ottawa do Grupo de Lima, a qual prescindiu da tese da necessidade de ter todos os meios (inclusive a força armada) sobre a mesa para derrubar Maduro. O plano inicial de Guaidó, que tinha o respaldo de Washington, era esse. Mas Trudeau traiu esse campo e mudou o filme em 4 de fevereiro. A ministra canadense, Chrystia Freeland, anunciou nesse dia que o Canadá e o Grupo de Lima apoiariam (unicamente) "um processo de transição pacífico através de meios diplomáticos e políticos sem o uso da força" [1]. Graças a essa frase, Maduro soube de antemão qual seria o lado fraco de Guaidó e quê método poderia ele, Maduro, aplicar em 23 de fevereiro.


Por isso Juan Guaidó, eu suponho, declarou ao final da dura jornada de ontem algo muito importante: "Os acontecimentos de hoje me obrigam a tomar uma decisão: propor à comunidade internacional de maneira formal que devemos ter abertas todas as opções para conseguir a libertação desta Pátria que luta e continuará lutando". Todas as opções. A linha é clara. Disse que insistirá nisso na segunda-feira 25 de fevereiro, na reunião do Grupo de Lima em Bogotá. A criação de um corredor humanitário escoltado por "corpos de Exército internacional que evitem a sabotagem por parte das tropas de Maduro", como propõe o Partido Popular da Espanha, é o começo de uma linha melhorada, porém não é toda a linha. É uma proposição que a Colômbia não rechaça e que foi solicitada por Guaidó. O limite desse esquema é a natureza mesma do regime de Maduro.


Outro fator que merece ser debatido é o conceito de "cerco diplomático" que o presidente Iván Duque emprega ao descrever sua política na luta contra Maduro. A idéia do "cerco" é inadequada. É uma visão estática. O cerco é a forma mais arcaica de enfrentar um adversário. O cerco permite a ele comprar tempo, se organizar e sobreviver a curto ou longo prazo. Contra Maduro não é questão de "cercos", é questão de destruir seu regime (que tem graves brechas), impedir sua expansão, desmantelar seu aparato armado e derrotar sua ideologia, o quanto antes. A estratégia do "cerco" permitiu à Cuba comunista, graças à URSS e à China, continuar fazendo dano, durante mais de 50 anos, na América Latina e na África. Essa gangrena agora se estende até a Europa.


Entretanto, o grande mérito do presidente Duque é haver tirado a política exterior colombiana, sobretudo com relação à Venezuela, do estado catatônico na qual Juan Manuel Santos afundou. Duque pôs em movimento novas idéias e uma série de forças. Não se deixou esmagar pelas vociferações de Maduro. Soube reconhecer ao aliado norte-americano toda sua significação, no campo histórico, humanitário, diplomático e militar. Na luta pela paz e democracia no hemisfério, os Estados Unidos são o principal aliado, o aliado imprescindível. Duque aceita isso e isso é uma verdadeira revolução intelectual frente às teses infames em voga durante os oito anos do regime santista. O giro permitiu a Duque ser o melhor aliado de Guaidó. Duque, porém, não corrigiu a tempo o desmando de Ottawa. Espero que amanhã, na reunião de Bogotá, não se levante de novo esse obstáculo.


A Colômbia não tem outra alternativa que a luta. Não nos digamos mentiras. É necessário se mover rápido mas com habilidade contra o Estado agressor chavista. A Colômbia democrática e livre está em perigo de morte se deixar que se estabilize a seu lado um narco-Estado, militarizado, expansionista e com falanges narco-guerrilheiras decididas a vender seu apoio a Maduro. Se não conseguimos o restabelecimento do Estado de direito na Venezuela, os poderes que amamentam a tirania pesarão cada vez mais contra nossas liberdades. E isso será também uma ameaça direta contra a nação Norte-Americana.


Nota:


[1] - Sobre esse episódio ver meu artigo de 5 de fevereiro de 2019: "¿Trudeau obstruye la ayuda humanitaria a Venezuela?":


E o artigo de 11 de fevereiro de 2019


Tradução: Graça Salgueiro