EUROPA E MADURO

 

A tímida posição dos europeus ante a crise da Venezuela


Eduardo Mackenzie


O chamado "consenso europeu" é ambíguo frente à crise na Venezuela. Esse "consenso" consiste em reconhecer Juan Guaidó como presidente encarregado da Venezuela para que, exclusivamente, organize novas eleições presidenciais. É o que hoje disseram, especialmente, com grande precisão, os governos da Espanha e França: que reconhecem Guaidó como "presidente encarregado para implementar um processo eleitoral". Entretanto, esses países e o "consenso europeu" não são de todo claros a respeito do maior obstáculo para essa eleição presidencial: o ditador Maduro continua no poder e se aferra a ele em vista de que nenhuma força militar desafia, no momento, a força militar assassina e corrompida que o respalda.


Enquanto o "consenso europeu" não olhar de frente a situação específica atual venezuelana não poderá propor senão frases bonitas no papel, porém quiméricas no plano real e objetivamente favoráveis ao ditador Maduro.


Frente a esse detalhe crucial, os governos europeus não têm uma orientação. É óbvio que uma nova eleição presidencial, "livre, justa e democrática", como a que pedem a Guaidó, não é viável enquanto Nicolás Maduro continue aferrado ao palácio de Miraflores.


Não será enquanto Juan Guaidó, a oposição venezuelana e seus aliados internacionais não superarem com êxito a fase mais álgida do processo: a queda definitiva e total do ditador e de seus cúmplices. Depois disso virá a autêntica restauração da democracia venezuelana. Mas não antes. A democracia renascente não estará a salvo de golpes e retrocessos brutais se Maduro, junto com os depravados altos comandos venezuelanos e as forças militares russo-cubanas estacionadas na Venezuela, todos ligados pelos mais baixos interesses, continuarem ocupando as posições de comando.


Nesta segunda-feira, a lista dos governos europeus que reconheceram Guaidó como presidente interino são onze: Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Letônia, Lituânia, Dinamarca, Portugal e Áustria. Entretanto, esses países devem melhorar suas posições e dar um respaldo muito mais claro ao presidente Juan Guaidó. Devem respaldá-lo diplomática e militarmente, sem rodeios, como faz o governo norte-americano e os governos latino-americanos do Grupo de Lima.


Para esses, Maduro já não é o chefe de Estado da Venezuela, é um usurpador que deve abandonar o poder sem derramamento de sangue. Se não o fizer, se continuar em sua posição de ocupar a presidência, e de obstaculizar por meios violentos e ilegais a chegada da ajuda humanitária à Venezuela que a população está esperando, esses países não excluem as outras opções e meios disponíveis para expulsá-lo do poder.


Em vista de que Guaidó rechaça a tese dos presidentes esquerdistas do México e Uruguai, favoráveis a um "processo de diálogo", Maduro trata de ganhar tempo e respaldos. Gesticula e ameaça Guaidó e as maiorias que o seguem, e anuncia que inclusive está disposto a organizar "eleições parlamentares" antecipadas mas sem data e muito à sua maneira, quer dizer, com todos os artifícios de opacidade, fraude e escamoteio que ele e seu antecessor Hugo Chávez puseram em jogo e utilizaram com êxito desde há 20 anos. Tudo isso para tirar Juan Guaidó do caminho.


Com o maior cinismo, Maduro não vacila em se auto-qualificar como o "grande defensor da felicidade" dos venezuelanos, e como o líder que quer se manter no poder durante os próximos anos "ouvindo sempre o povo" e governando "de frente para o povo".


Hoje, segunda-feira, Maduro também assegurou que, de novo, havia pedido apoio ao Papa Francisco, um expert em propor o "diálogo" com o verdugo nos momentos-chave, e que para isso havia enviado uma carta a Roma, não sem omitir nela outra lindeza: que ele, Maduro, está "a serviço da causa de Cristo". Em seguida, o tirano sem vergonha rechaçou ante uns soldados o ingresso da ajuda humanitária para a Venezuela que está sendo acumulada na cidade colombiana de Cúcuta. Gesticulou que impedirá a entrada desses caminhões quando todo mundo sabe que tal atitude agravará a dramática crise humanitária, sobretudo sanitária e alimentícia da Venezuela, o que poderia desatar uma guerra civil nesse país martirizado e até uma confrontação armada com a Colômbia e com países que conformam o programa humanitário.


A ajuda que mais conta para Maduro é a russa. Ela já está no teatro dos fatos ou está se dirigindo para a Venezuela? Ninguém sabe. Em todo caso, o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, desnaturalizou a ajuda humanitária e a mostrou como "tentativas de legitimar a usurpação do poder como uma ingerência direta e indireta nos assuntos internos da Venezuela". Essa atitude agressiva de Moscou é o que explica a tímida posição dos europeus?


Tradução: Graça Salgueiro