A MORTE DE FIDEL E A ORFANDADE POLÍTICA DA ESQUERDA
 

 

Fidel Castro e os filhotes da ditadura

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

A morte de Fidel Castro em 25/11/2016, líder da revolução cubana (1959), completou um ano. O Castrismo não é só uma expressão do caudilhismo populista como foi o Getulismo e o Peronismo. O caudilhismo é um regime de governo autocrático cujo princípio da autoridade reside nas idiossincrasias do líder ou chefe político. O caudilhismo é um regime idiossincrático.

O Castrismo resulta da penetração do maxismo-leninismo dentro do velho caudilhismo latino-americano - o encontro do líder idiossincrático, o caudilho, com o órgão formador da consciência e organizador das massas – a vanguarda do partido comunista. O Castrismo é herdeiro do velho caudilhismo, e do marxismo-leninismo. O Castrismo é um dos ramos do marxismo como são o Leninismo, Trotskismo, Stalinismo, Maoismo, etc. O caudilhismo preparou o ambiente para o comunismo chegar ao poder e o comunismo forneceu ao caudilhismo uma ideologia.

Heitor De Paola em sua obra, O Eixo do Mal Latino-americano e a Nova Ordem Mundial (2016), coloca com precisão a importância de Cuba na política e, imaginário esquerdista da América Latina. “É impossível entender a América Latina atual sem responder com clareza a esta pergunta crucial, pois da existência de Cuba dependeu – e ainda depende - toda a estratégia comunista na América Latina, principalmente a ofensiva militar da luta armada e a ofensiva cultural ainda em curso.” [DE PAOLA, 2016, p.125]

A influência política e cultural de Cuba não se reduz a guerra de guerrilhas e a revolução cubana (1959). As figuras de Ernesto Guevara (1928-1967), o Che, e Fidel Castro (1926-2016) são elementos míticos que servem de inspiração para os revolucionários profissionais, juventude rebelde, artistas e celebridades politizadas. E a morte do ditador cubano Fidel Castro significou a morte do demiurgo da Nuestra América. Fidel é retrato como o artesão divino do universo, o líder que ofereceu o princípio organizador da realidade latino-americana e a sua morte é o fim do mundo.

Os militantes, simpatizantes e compañeros que lamentam a morte do ditador Castro e relembram suas “glórias”, sofrem de um sintoma psicopatológico -  orfandade política.  O órfão político é, um adulto imaturo ou criança agigantada que reclama a necessidade de um ditador para dirigir sua vida, ou seja, de um pai político que dita o certo e o errado. Todas as pessoas experimentam o desamparo em suas vidas e buscam um ombro amigo como apoio. O ombro amigo é um apoio, e não o sustentáculo da vida do indivíduo.

A orfandade não significa apenas o desamparo, ela implica a impossibilidade de o sujeito superar a situação de desamparo. É como uma criança agigantada que perde os pais e necessita recorrer à uma paternidade artificial, o Pai político. A necessidade do Pai político é um traço psicopatológico daqueles incapazes de se autogovernar - a falta  do governo de si. 

A ideia de que os homens podem governar a si é o que preocupa tiranos e embusteiros. Se os indivíduos governam a si, a sociedade se autogoverna, tudo é movido por um motor oculto ou por, uma mão invisível que dirige a máquina social – afastando a necessidade do intervencionismo. 

A ideia de autogoverno individual como condição da Soberania popular é um dos pilares da democracia. A obra, Democracia na América (1835-1840),  de Alexis de Tocqueville (1805-1859) explica: “Entre as nações onde reina o dogma da soberania do povo, cada indivíduo constitui uma porção igual do soberano e participa igualmente do governo do Estado. Assim, cada indivíduo é julgado tão esclarecido, tão virtuoso, tão forte quanto qualquer outro dos seus semelhantes.

Por que, então obedece ele à sociedade, e quais são os limites naturais dessa obediência? [...] Em tudo o que só diz respeito a ele mesmo, continua sendo senhor: é livre e só a Deus deve contas das suas ações. Daí a máxima de que o indivíduo é o melhor e exclusivo juiz do seu interesse particular, e de que a sociedade não tem o direito de dirigir as suas ações a não ser quando se sente lesada pelo seu ato ou quando tem necessidade de reclamar o seu concurso.” [TOCQUEVILLE,1977, p.56-7]

A liberdade e responsabilidade individual são partes constitutivas da verdadeira Soberania, demonstra Agustín Álvarez (1857-1914) na sua obra Manual de Patología Política (1899).

“La debilidad apasionada de los individuos, esa violencia enconada que no les permite aceptar el derecho como regulador supremo, reclaman el poder absoluto. Cuando los hombres disputan, se baten, se degüellan, es indispensable un amo» (Ph. Chasles). Y un amo no es un gobernante: «para gobernar se requiere arte para mandar solo se necesita habilidad y brutalidad" (Maximiliano). El que no es dueño de sí mismo es apropiable por otro como res nullius. Si no sabe ponerse freno, le pondrán bozal y lo llevarán del cabestro como una mula.

“A debilidade apaixonada dos indivíduos, essa sórdida violência não lhes permite aceitar o Direito como regulador supremo - reclamam o poder absoluto. Quando os homens disputam, se batem, se decapitam é, indispensável um amo. ( Ph. Chasles). E um amo não é, um governante: “para governar se requer arte, para mandar apenas se necessita de habilidade e brutalidade” (Maximiliano). Aquele que não é, dono de si mesmo é apropriada por outros como res nullius (coisa de ninguém). Se não pode se controlar, lhe calarão e o levarão ao cabresto como uma mula.”  [Minha Tradução]
 

“Los que quieran ser libres deben saber una cosa y es que todo pueblo que no aprende y adquiere por sí mismo la inteligencia y práctica del gobierno de sí mismo no debe esperar jamás a que el depositario de ese gobierno sea el que le enseñe .... El caudillo sudamericano es el efecto de la incapacidad de su país para gobernarse a sí mismo.” [ALVAREZ, 1916, p.318]

“Os que querem serem livres devem saber de uma coisa - todos os povos que não aprendem a adquirir por, si mesmo a inteligência e prática do governo de si mesmo não, deve esperar jamais que o depositário desse governo será quem lhe vai ensinar [...] O caudilho sul-americano é, o efeito da incapacidade de seu país de governar a si mesmo.” [Minha Tradução]

Em suma, os órfãos do Castrismo são um exemplo da orfandade política - eles reclamam a existência de um Pai político no lugar da liberdade.

Para os filhotes da ditadura, a glória está em governar os outros e não, no autogoverno.  As ditaduras vivem do abandono do governo de si.

FONTES

ÁLVAREZ, Agustín. Manual de Patologia Política. Ed. La Cultura Argentina, Buenos Aires, 1916.
DE PAOLA, Heitor. O Eixo do Mal Latino-americano e a Nova Ordem Mundial. 2 ª Ed. Observatório Latino, São Paulo, 2016.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. 2 ª Ed. Itatiaia, São Paulo, Ed. Universidade de São Paulo, 1977.