POR ONDE ANDA A VERGONHA?
 

 

A VERGONHA

Jorge E. M. Geisel

08/11/2017

“Circular a vários nobres de Portugal” (Vieira, na Bahia, aos 31/07/1694):
Meu Senhor – É coisa tão natural o responder, que até os penhascos duros respondem, e para as vozes tem eco. Pelo contrário, é tão grande violência não responder, que aos que nasceram mudos fez a natureza também surdos, porque se ouvissem, e não pudessem responder, rebentariam de dor. (Vieira - Cartas v.2,p.187 – Clássicos – Sá Costa)  

A Vergonha é produto que vai se tornando escasso no mercado dos valores morais e éticos, em escala progressiva mundial e, com destaque, muito vergonhosa e até no âmbito de sinistras integrações inspiradas pela Constituição de 88, em seus chamados “Princípios Fundamentais”. O Foro de São Paulo, com suas consequências, um exemplo marcante.

Tendo em vista as diversas investidas ideológicas contra a Liberdade, com vitórias alarmantes de cooptação para a hegemonia de políticas totalitárias na América Latina e alhures, urge manter nossos canais de livre expressão de pensamento e de conexão entre os aflitos e os indignados, que possam bradar aos quatro ventos: QUE VERGONHA!

É preciso agitar a Vergonha e manter liberada a livre palavra de quem explica a quem precisa ser informado sobre a realidade não mascarada dos acontecimentos na sua cidade, estado, região, país e neste globo sem vergonha e repleto de mentiras e falsidades, de forma independente e corajosa. A bandidagem tem dominado o jornalismo, a política, os salões, palácios, congressos, comissões e fóruns que fingem ser os perpétuos defensores de nossas liberdades. Uma falta de vergonha globalizada.

Todos deveriam saber, no entanto e em benefício da verdade, que muitas das barbaridades que enchem o balaio das indignações brasileiras, são resultados de vícios e equívocos sistêmicos que foram sendo acumulados, desde que o histórico Cabral avistou o Monte Pascoal. O separatismo de 1822, portanto, não nos livrou dos problemas, depois agravados pela falta de instrução e educação de uma população menos considerada do que o poder de um estado contratado por si mesmo. A conclusão aí está: não há respostas fáceis para uma maioria gritante, acostumada a esperar do Estado impostor a salvação para suas infindáveis demandas, naturais do simples viver. E foi assim e de propósito, que os Poderes da República agigantaram-se em elefantíase, transformando-se em pata de elefante, com seus parasitas repletos de prerrogativas e privilégios. Mais do que isso, o Estado tornou-se o vetor primordial do caldo de cultura de amoralidades, hoje cristalizadas nos gestos, palavras e atos de uma falsa elite, aboletada no conforto dos poderes de berços esplêndidos.

Em defesa pelo menos da Vergonha, precisamos abrir um leque de opções para ativá-la, a favor da reclamação contundente e ou da crítica analítica dos fatos concretos que, no Brasil, já fariam corar as faces de Belzebu, quanto mais qualquer outra cidadania ou civilidade que se preze. Mas, nada pior para a elucidação dos fatos, do que a travessia pelas valas negras dos esgotos ideológicos, de maneira guiada por uma mídia dotada de interesses espúrios.

Uma boa dose de VERGONHA precisa ser inoculada nas veias de gente que se acostumou na servidão voluntária e nos que se acomodaram na consideração de que tudo está ocorrendo dentro da mais absoluta normalidade, incluindo a classificação oficializada dos diversos gêneros da sexualidade humana. Os que só anteveem o respaldo da aposentadoria parecem estar conformados. Aliás, como ensinava La Fontaine: “Não se pode ensinar novos truques a velhos cães”...

 

 
O Autor é advogado no Rio de Janeiro