AS CELEBRIDADES E O POLITICAMENTE CORRETO
 

 

Celebridades e o Partido do politicamente correto

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

Para Antonio Gramsci (1891-1937), os partidos devem ser compreendidos não apenas no sentido formal, como uma organização composta por políticos profissionais, militância e um programa eleitoral, mas no sentido amplo. O partido no sentido amplo compreende os grupos e personalidades que são formuladores ou elaboradores de uma visão de mundo ou ideologia, assim como os difusores ou propagadores de dada visão de mundo ou ideologia – todos os formadores e difusores de uma opinião ou tomadores de posição operam como partidos para Gramsci.  “Trata-se do seguinte: os partido sempre existiram, permanentemente, ainda que com outras formas e outros nomes...” [GRAMSCI, 1999, v.1, p.378] 

Os partidos sempre existiram e operaram na história as igrejas, associações comunitárias, famílias reais, pensadores, etc., são partidos. 
 “[...] os “partidos” podem se apresentar sob os nomes mais diversos, mesmo sob o nome de antipartido e de “negação dos partidos” na realidade, até os chamados “individualistas” são Homens de partido, só que gostariam de ser “chefes de partido” pela graça de Deus ou da imbecilidade dos que os seguem. [GRAMSCI, 2007, v.3, p.326)

Por isto Gramsci, afirma que na sociedade ninguém é apartidário, desde que se entenda partido num sentido amplo, e não formal. Entre a diversidade de opiniões individuais e grupais, existe uma parcela de opiniões que prevalece relativamente ou absolutamente sobre as demais, está se constitui na opinião pública, a base do senso comum sobre a qual os aparatos de poder e o próprio Estado vão se legitimar e apoiar. Estes grupos e personalidades que fazem valer suas opiniões sobre as demais, são aqueles que vão exercer a função diretiva e educativa das massas.

Abraham Lincoln (1809-1865) já dizia: “Public sentiment is everything.  With public sentiment, nothing can fail without it, nothing can succeed.”  [“O sentimento público é tudo. Com o sentimento público, nada pode falhar, sem isso nada pode ter sucesso.” TRADUÇÃO LIVRE]

Os políticos profissionais e os seus secretários se preocupam com as condições materiais da campanha, ou seja, com os votos e dinheiro. E se esquecem que a vitória política, é sobretudo vitória cultural. A fabricação de um novo senso comum através de um movimento político capaz de se consolidar como cultura dominante – hegemonia. Na guerra militar alcançado o objetivo estratégico de destruição do exército inimigo e ocupação do território, se conquista a vitória. Mas a batalha política é constituída de muitas frentes e trincheiras. Em certo sentido, é uma luta travada pela hegemonia, ou seja, uma guerra psicológica e cultural pela apropriação de corações e mentes.

Quando se estuda a cultura é importante se focar não apenas na alta cultura, mas também na cultura de massa, a cultura pop. É através dessa cultura pop que podemos observar quem são os agentes que estão moldando a forma de pensar e estilo de vida do grosso da população, sobretudo da nossa juventude. E os principais agentes da cultura pop são as celebridades. As celebridades atuam sobre a opinião através de ondas. A onda é uma força impetuosa que gera uma perturbação momentânea, ou seja, uma grande agitação cultural que logo, se dissipa. As forças que formam uma onda, não são forças repentinas e ocasionais, mas antes forças invisíveis, ideias, que agem implicitamente até que conseguem emergir.  Toda onda é passageira, e para não ser apenas uma moda é necessário que o movimento cultural se consolide como parte do establishment, por isto que as celebridades necessitam do estamento político para sobreviver além de uma década. As celebridades se perpetuam no poder quando passam a se tornar patrimônio do senso comum. 

O senso comum é o conjunto de opiniões compartilhadas pela maioria sobre o que é bem e mal, justo e injusto, certo e errado, permitido e proibido, etc. A força do senso comum é percebida como pressão social sobre os juízos particulares.  O senso comum persiste como um consenso, uma opinião pública persistente. 
Para modificar uma sociedade é necessário alterar o senso comum, ou seja, criar uma nova opinião pública sobre o que seja, o bem e mal, justo e injusto, certo e errado, permitido e proibido. E isto só é possível através da revolução cultural. O método de ação da revolução cultural não é tomar o poder de assalto ou dar um golpe de Estado, e depois impor uma ideologia. Mas, antes conquistar a supremacia intelectual e moral no campo da cultura, a hegemonia, e assim forjar um novo senso comum -  Estado é consequência.

Para poder modificar o senso comum, é necessário formar uma opinião pública favorável às ideias novas, e isto só é viável através de uma série de reformas de costumes e opiniões, até alterar o conteúdo intelectual e moral da cultura. Essa alteração do senso comum é um processo longo e paulatino, que só é possível através daquilo que o Gen. Avellar Coutinho denominou de ideologias intermediárias, que são ideias e palavras-de-ordem aceitáveis e palatáveis que omitem o conteúdo agressivo. Ou, em outros termos: difundir a mensagem, modificando os meios e formas, sem alterar o conteúdo.  Exemplos deste processo gradual de subversão da cultura são: o feminismo, o racismo, o multiculturalismo, o gayzismo, o relativismo, etc., que são sintetizados no politicamente correto. O politicamente correto pretende substituir os parâmetros de certo e errado, bem e mal, justo e injusto, etc., do senso comum conservador, por uma régua progressista.

O politicamente correto ao ser defendido e difundido por autoridades institucionais, personalidades, grupos políticos, e sobretudo por celebridades ele passa a ser o parâmetro de “inteligência” e “moralidade”. E aqueles que se colocam contrários ao politicamente correto são considerados pessoas desumanas, intolerantes e burras. Caso, alguém defenda uma postura que seja contrária ao politicamente correto, a patrulha se mobiliza para assassinar a reputação da pessoa, ou seja, difamar e inventar factoides até que a pessoa experimente a morte em vida.

O politicamente correto é uma prisão sem grades, onde a opinião de uma “minoria” oprime todo a sociedade. Em nome do politicamente correto se pode aniquilar moralmente uma pessoa na busca do aumento de poder das minorias, o “empoderamento”.

Referências:

Entrevista de Taís Araujo dada ao Brazil Talk. 26/07/2017
https://www.youtube.com/watch?v=NIeCD7b-28o
https://www.geledes.org.br/tais-araujo-participa-de-debate-na-columbia-university-em-nova-york/

Artigos enviesados sobre Donald Trump e o protesto dos atletas do futebol americano.
https://www.geledes.org.br/em-resposta-trump-jogadores-e-ate-dono-dos-jaguars-cruzam-bracos-e-ajoelham-durante-hino-dos-eua/
https://www.nytimes.com/2017/09/25/opinion/trump-politics-nfl-athletes.html
https://www.nytimes.com/2017/09/26/sports/nfl-trump.html

Obras sobre o Pensamento de Gramsci
COUTINHO, Sergio Augusto de Avellar, Cadernos da Liberdade: uma visão do mundo diferente do Senso Comum modificado, Belo Horizonte, Ed. Sografe, 2003
FERREIRA, Oliveiros S. Os 45 cavaleiros húngaros   Hucitec  ed. UnB , SP-Brasília, 1986.
Celebridades, poder e cultura
BARNES, Robin D. Outrageous invasions: celebrities, privates lives, Media, and the Law. United States of America, Oxford University Press, 2010
VAN SLYKE, Tracy. How Progressives Will Breakthrough with Pop Culture, Supported by The Ford Foundation , Outubro 2004
Site: http://spoileralert.report/sites/sar/files/SpoilerAlert.pdf
Making Waves, produzido pelo grupo de cultural da Open Society Foundationcs, Georges Sores e amigos. A edição utilização é a segunda edição de janeiro de 2014
Site: http://revolutionsperminute.net/wp-content/uploads/2015/05/Making-Waves-The-Culture-Group.pdf
Artigo de John Daly 
Cultura Pop: É hora dos conservadores darem o seu recado. Traduzido por Rodrigo Carmo
http://tradutoresdedireita.org/cultura-pop-e-hora-dos-conservadores-darem-o-seu-recado/

Obras de Antonio Gramsci (1891-1937)
GRAMSCI, Antonio. Cadernos  do  cárcere,  v.1.   Introdução  ao  estudo  da  filosofia.  A filosofia de Benedetto Croce. Rio  de  Janeiro:  Civilização Brasileira, 1999.
GRAMSCI, Antonio, Cadernos de cárcere, v.2. Os intelectuais O princípio  educativo Jornalismo. 2ªed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001
GRAMSCI, Antonio, Cadernos do cárcere, v. 3. Maquiavel – Notas sobre o Estado e a política, 3ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2007.