IMPORTANTE ARTIGO SOBRE AUTISMO
 

 

TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO E ALFABETIZAÇÃO EMOCIONAL.

Marisa Helena Leite Monteiro (1)

Quando pensamos em alfabetização associamos a inserção do indivíduo no mundo do conhecimento com o desenvolvimento das aptidões intelectuais através do aprendizado da leitura e da escrita. Essa inserção, no entanto, se inicia muito antes com a alfabetização emocional que se põe em movimento desde o nascimento.

O bebê nasce com um potencial natural de ir ao encontro de outro ser humano, de explorá-lo e conhecê-lo. Chamado instinto epistemofílico, o potencial instintivo para o conhecimento tem início com a curiosidade do bebê despertada pela voz da mãe e do pai. Em um processo contínuo de alfabetização emocional, os pais vão inserindo o bebê no mundo do conhecimento, desde o primeiro encontro do olhar até às sensações físicas de aconchego e calor. Dando voz às experiências de cada encontro, as palavras apresentam o sentido e sustentam os momentos de satisfação, frustração, medo e dor. Esse potencial natural de conhecimento difere em cada bebê. Uns são mais ativos, outros mais passivos ou apáticos. Alguns facilmente se satisfazem, outros são muito resistentes à satisfação. Alguns mais aflitos e outros mais tranquilos. A experiência vivida no primeiro ano de vida formará a base para o desenvolvimento do psiquismo e demais experiências futuras. O processo de alfabetização emocional instala a noção do eu e do outro, de espaço e de tempo base da integração das funções cognitivas. 

Nas crianças que se encaixam dentro do espectro do autismo, essa alfabetização emocional não aconteceu ou instalou-se com grandes lacunas gerando prejuízos para o desenvolvimento. A curiosidade e o interesse pelo outro não se instala ou se interrompe, impedindo que o processo inicial de aprendizado através da experiência emocional com o outro ocorra. Ao invés do interesse e apego pelas pessoas, desenvolvem comportamentos fixados em sensações proporcionadas por si mesmo. O interesse e o apego se dirigem a  objetos ou coisas com movimentos repetitivos, inclusive como é comum nas imagens disponíveis em celulares ou tablets. Esses estímulos sensoriais acabam funcionando como uma barreira de contato com pessoas e o mundo à sua volta ou proporcionando uma interação fugaz. 
 

Na maioria dos casos, o alerta nos pais se dá quando a criança não desenvolveu a linguagem. Outras vezes, é a escola que sinaliza a dificuldade da criança de se engajar em atividades conjuntas. Indícios de retraimento ou de refratariedade no contato merecem um olhar cuidadoso para a criança. As chances de retomada do desenvolvimento são maiores quanto mais cedo o retraimento for detectado. Entende-se por desenvolvimento a retomada do potencial da criança de ir ao encontro de outro ser humano, de explorá-lo e conhecê-lo. O comportamento da criança é como a ponta do iceberg e faz parte de um conjunto de manifestações, que naturalmente poderão ir se modificando quando a base do Iceberg é tratada.

É importante reforçar que é no encontro emocional entre duas pessoas que se forma a base da integração das funções cognitivas.
Assim como a gestação é um período necessário para a formação dos órgãos, o primeiro ano de vida é uma etapa crucial do desenvolvimento emocional. Ainda há muita desinformação da extensão dessa importância entre os profissionais que lidam diretamente com bebês e crianças. Quando as atenções se concentram na ponta do iceberg, o comportamento manifesto, a afetividade da criança permanece congelada. Poderíamos dizer que o iceberg se solta do continente e a criança permanece com o desenvolvimento congelado e obstruído, sem noção da sua própria existência. 

A etiologia do autismo continua sendo objeto de estudo em vários campos da ciência. Na atualidade, a Epigenética tem reconhecido a interação de múltiplas causas. Desde 2013, no DSM-V, a denominação utilizada pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) insere e reconhece a multiplicidade de fenômenos e as variadas formas de manifestação que encontramos nessas crianças através da inclusão da palavra “espectro”. Ainda que essa nova nomenclatura possa acolher a diversidade e a complexidade presentes nesses casos, parece que continuamos distantes de reconhecer a singularidade de cada criança através de um olhar para a pessoa que se encontra impossibilitada de usufruir da relação  com o outro e consigo mesma.

Apesar do diagnóstico identificar essas crianças, cada uma delas possui um mundo interno com diferentes possibilidades de evolução. As semelhanças ganham diferenças quando se retoma a alfabetização emocional. A apreensão do meio externo passa pela apreensão do mundo interno. O mundo interno corresponde ao mundo das emoções, à forma que são armazenadas nossas experiências e aos desdobramentos desse armazenamento. Não há indivíduo que não o possua, ainda que não o reconheça. Podemos observar que essas crianças não reconhecem a própria existência. Na maioria dos casos, dificilmente usam o pronome pessoal quando começam a falar. Com o potencial de ir ao encontro do outro obstruído, a comunicação não se desenvolve eficientemente. Desta forma, a apreensão do meio externo acaba sendo utilizada como extensão de si mesmos e não com as funções às quais se destinam. 

Kanner descreveu em 1943, a partir da publicação de onze casos, a síndrome do autismo precoce infantil como “distúrbio do contato afetivo acompanhado de ausência ou prejuízo da linguagem e caracteriza-se pela ausência da capacidade da criança desenvolver relações”. Relação afetiva não se treina, se constrói num processo que busca alcançar a prematuridade emocional da criança, ajudando-a a nascer para o outro e para si mesma como ser pensante e responsivo. É neste olhar que gestamos a esperança de retomada ao desenvolvimento, ainda que algumas dificuldades permaneçam.

Não devemos subestimar o potencial intelectual dessas crianças. O acolhimento da criança na escola pode ser um agente facilitador de desenvolvimento. O convívio com outras crianças desperta um processo de imitação e identificação, quando ocorre em paralelo o processo de alfabetização emocional. Não é necessário que seja uma escola especial, o importante é que seja uma escola que possua um acolhimento assistido.

 

 

 (1) Psicóloga. Psicanalista de crianças, adolescentes e adultos
Mestre em Ciência / Neurologia – HUCCF/UFRJ
Membro Didata e Docente da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro - SPRJ
Membro da International Psychoanalitycal Association – IPA
Membro da Federación Psicoanalítica de América Latina - FEPAL
Membro do Grupo Prisma de Pesquisa Psicanalítica em Autismo - GPPA
Especialização em Terapia Familiar – IPUB/UFRJ
Coautora do livro Atendimento Psicanalítico do Autismo