ESTUDOS SOBRE O PACIFISMO III
 

 

ESTUDOS SOBRE O PACIFISMO

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

III

Pacifismo ou Masoquismo

Hoje é visível a condenação dos ideários jihadistas, fascistas e comunistas por parte de intelectuais e autoridades liberais, mas a crítica feita às ideologias progressistas como o pacifismo são poucas vezes exploradas, se esquecem que o pacifismo é uma ideologia que abre de modo progressivo flancos na sua cultura destruindo a vontade de reagir e resistir aos ataques dos seus inimigos.

O pacifismo é uma ideologia progressista que exige um trabalho intelectual de inculcação de ideais de longa prazo, já que as pessoas não mudam sua visão de mundo da mesma forma que trocam de roupas. A visão de mundo de uma pessoa é resultado de sua vida e da tradição coletiva, por isto que só o trabalho longo e progressivo de reeducação, embasado antes em métodos persuasivos do que em meios coativos pode alterar a visão de mundo das pessoas. A coação pode gerar submissão, mas não tem o poder dos meios persuasivos de gerar a obediência. 

As ideologias progressistas como o pacifismo, são importantes para os jihadistas, guerrilheiros e terroristas pela capacidade de introjetarem a culpa na vítima, convencendo grupos, personalidades e líderes do Ocidente de que o culpado pelas guerras e misérias do mundo é o Ocidente belicoso e que devemos adotar uma postura passiva e nunca reativa diante de ataques.

O pacifismo significa para os estrategistas da subversão cultural, o momento ideal para o ataque da cultura através das construções de narrativas que culpam o próprio agredido como o responsável por crimes humanitários, rotulando o Estado e a sociedade de racista, xenofóbico e beligerante, sendo os ataques terroristas meras respostas históricas à opressão das potências colonialistas ocidentais.

O pensador Pascal Bruckner em sua obra Tirania da penitência (2006) explica como o pacifismo é uma forma de masoquismo praticada pelo Ocidente, sendo o próprio pacifista uma pessoa que obtém o prazer ao se humilhar perante o inimigo.

“Nada é mais ocidental do que a detestação do Ocidente, essa paixão de se maldizer, de se fustigar. [...] O espírito crítico se insurge contra si mesmo e consome sua forma. Mas em vez de terminar aumentado, purificado, ele se devora em uma espécie de autocanibalismo e começa a se destruir com uma volúpia taciturna que não deixa nada de pé. O hipercriticismo termina virando um ódio de si, deixando atrás dele somente ruínas. Um novo dogma da demolição nasce da recusa de dogmas.” [BRUCKNER, 2008, p.51]

A democracia necessita da crítica para se aprimorar, mas isto permite que os inimigos da democracia se utilizem da crítica sem critério para desestabilizar e implodir a própria democracia. E além disto a nossa intelectualidade se comporta como os sumos sacerdotes da difamação, sendo o pacifismo uma dessas formas de autoflagelação que coloca o inimigo dentro do coração na tentativa de livrar o mundo das guerras através da promoção do próprio suicídio.  Afinal: “O mal não pode vir senão de nós os outros homens são movidos pela simpatia, benevolência, candura.” [BRUCKNER, 2008, p.51]

O pacifismo é uma forma de suicídio cultural promovida como falsa filantropia por certas autoridades políticas e intelectuais, cujo o dever é proteger a sociedade e sua cultura. O pacifista inculca na cabeça das pessoas que a paz é sinônimo de rendição. A decisão de rendição voluntária deixa marcas quase indeléveis para a posteridade de uma cultura masoquista que sente prazer em ser oprimida e humilhada pelos seus inimigos.

Esta inversão de valores que retrata o terrorista, guerrilheiro e subversivo como um agente pacifista e faz da democracia Ocidental e dos seus agentes políticos, militares e civis o germe do mal, é um dos pontos centrais dos discursos pacifistas de jihadistas e ditadores. 

“[...] aqueles que querem destruir a democracia parecem lutar por reivindicações legítimas, enquanto os que querem defendê-la são apresentados como os artífices de uma repressão reacionária. A identificação dos adversários, internos e externos, da democracia com forças progressistas legítimas e o que é pior, com forças de “paz”, tende a desconsiderar e a paralisar a ação dos homens que tão-somente querem preservar suas instituições.” [REVEL, 1984, p.9]
O Ocidente como o câncer do mundo é um dos produtos da indústria cultural esquerdista, em especial do pacifismo, que faz do Ocidente o responsável por todos os males do mundo. Para os “democratas progressistas” as sociedades ocidentais são responsáveis pelo imperialismo, racismo, machismo, sexismo, etc. 

O slogan - O Ocidente é um acidente - é o ponto de convergência entre esquerdistas e jihadistas.

Os inimigos da democracia Ocidental jogam uma partida fácil pelo fato de manobrarem as liberdades democráticas – a liberdade de expressão, organização, propaganda e crítica – para destruíram a democracia no seu âmago.
A democracia só pode existir e florescer no convívio pacífico, não foi feita para a guerra e por esta razão ela não sabe se defender dos inimigos externos e, sobretudo dos seus inimigos internos que se travestem de “progressistas” e pacifistas. 

A democracia tende a promover a coexistência pacífica com o inimigo.
“A democracia inclina-se a ignorar ou mesmo a negar as ameaças de que é objeto, tanto lhe repugna adotar medidas adequadas a dar-lhes a réplica. E só desperta quando o perigo se torna mortal, iminente, evidente. Mas, então, ou falta-lhe tempo para poder conjurá-lo, ou o preço a pagar pela sobrevivência torna-se insuportável.” [REVEL, 1984, p.8]

É justamente em situações de paz que as forças inimigas do Ocidente e da democracia gestarão as condições subjetivas para a subversão da cultura, já que para as forças inimigas do Ocidente e da democracia o termo paz significa o intervalo de preparação para a guerra.

Os povos e as civilizações jamais aceitaram se render voluntariamente ao inimigo sem ter que passar pela prova da guerra, mas sob o nome de pacifismo os povos democráticos e a civilização Ocidental aceitarão cavar a própria cova?

BIBLIOGRAFIA

ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as Nações. Editora UNB. 2002.
AZAMBUJA, Carlos Ilich Santos. A Hidra Vermelha, São Paulo.  2 ª ed. Observatório Latino, 2016.
BRUCKNER, Pascal. A Tirania da penitência: ensaio sobre o masoquismo ocidental. Rio de Janeiro, DIFEL, 2008.
REVEL, Jean-François. Como terminam as democracias. São Paulo, DIFEL, 1984.
CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra. São Paulo, 3 ed. Editora Martins fontes, 2010.
FERREIRA, Oliveiros S. Forças Armadas para quê?  Versão Ebooksbrasil, 2004.
FERREIRA, Oliveiros S. Os 45 cavaleiros húngaros, São Paulo-Brasília. Hucitec ed.UnB, 1986.
SCHMITT, Carl. O conceito do político/Teoria do Partisan. Belo Horizonte, Del Rey, 2008.
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