O QUE É EXTREMA-DIREITA?
 

 


MARINE LE PEN É MESMO DE EXTREMA-DIREITA?

Difamando todos os oponentes como fascistas a esquerda borra  a linha que separa democracia de selvageria

Douglas Murray

THE SPECTATOR


O que é “extrema-direita”? Com a ida de Marine Le Pen para o segundo turno presidencial da França, o termo tem sido liberalmente usado - como tem sido nos últimos anos em todo o Ocidente. Golden Dawn na Grécia, Jobbik na Hungria e os democratas da Suécia são todos de extrema-direita, para citar apenas três.

O fato de que os dois primeiros desses grupos se envolvem em intimidação, racismo e demonstrações abertas de violência política normalmente os distinguem de um partido democrático pacífico oposto à imigração em massa como os democratas suecos. No entanto, para todos há o mesmo nome.

O site Breitbart é freqüentemente chamado de extrema-direita, como é a administração de Donald Trump. Assim também é Richard Spencer, um auto-proclamado supremacista branco que no ano passado levou uma multidão de apoiadores ao delírio fazendo saudações nazistas. Ninguém está interessado nas diferenças?

Houve um tempo em que o termo atuou como um cordão sanitário útil, marcando os fascistas e neonazistas da legítima "direita" política. Mas, em toda a Europa, secções da extrema-direita, como a extrema-esquerda, se tornaram mais moderadas. Ao mesmo tempo, as vantagens políticas de curto prazo de designar todos os oponentes de extrema-direita se mostraram irresistíveis para alguns militantes partidários.

Hoje há grupos que lutam contra o UKIP (United Kingdom Independent Party) como "extrema-direita", levando a se perguntar que linguagem política eles usariam se os verdadeiros radicais violentos viessem, depois de todas as suas imprecações terem sido gastas em Kippers (forma de tratamento dado aos que apoiam o UKIP)?

Esse uso excessivo do termo tem corroído os limites que criou, tornando muitas pessoas suspeitas de todas essas designações. Muitas pessoas - especialmente os jovens - têm menos suspeitas da Frente Nacional do que talvez devessem ter porque viram pessoas que não merecem o rótulo de extrema-direita sendo marcadas precisamente dessa forma.

Ao longo dos últimos anos, enquanto viajava pela Europa para pesquisar para o meu livro sobre a crise migratória, The Strange Death of Europe: Immigration, Identity and Islam, deparei-me com uma série de partidos geralmente chamados de extrema-direita. Alguns merecem claramente o rótulo (se significa, essencialmente, fascista). Outros - entre os quais eu incluiria os democratas suecos - parece-me que estão sendo manchados pelo termo. Eles têm um passado nos extremos políticos, como fazem muitos partidos no nosso continente, mas se permitimos a esquerda política, certamente devemos permitir a direita política? Talvez tenhamos resistência porque, como dizia Cavafy sobre os bárbaros, parece que precisamos deles. Eles são uma força contra a qual podemos nos orientar numa era em que poucas outras coisas na política parecem certas.

No entanto, nossos argumentos e definições são obsoletos precisamente no momento em que eles precisam ser mais flexíveis. Considere o problema de Marie Harf (uma porta-voz do Departamento de Estado durante a administração Obama) em uma recente entrevista na TV quando chamou Le Pen de extrema-direita e perguntou-se o que isso significava. "Para mim, isso significa suas políticas sobre imigração, suas políticas sobre o secularismo na França, que tem sido uma espécie de tradição francesa. Hoje, ela [Le Pen] disse: "Vamos fechar todas as mesquitas islâmicas”. “Essa é uma posição muito de extrema-direita a tomar mesmo depois de um ataque terrorista. Ela às vezes pediu um fechamento completo da imigração. Combine isso com ela flertando com sair da UE, com a saída da OTAN”.

Pode parecer injusto destacar estes aspectos. Pelo menos Harf tentou responder à pergunta. Naturalmente, longe de ser extrema-direita, as visões de Le Pen sobre o secularismo estão amplamente dentro dos pontos de vista das repúblicas francesa e americana. E se é de extrema direita "flertar" com a ideia de sair da UE, o que devemos chamar o público britânico, que não meramente flertou com a ideia de deixar a UE, mas na verdade votou a favor por maioria? Quanto ao fato de ser "de extrema direita" flertar com a saída da OTAN, então devemos descrever o presidente de Gaulle - que tirou seu país da aliança em 1966 - e quatro décadas de seus sucessores (incluindo o presidente Mitterrand) como extrema-direita.

Numa peça excepcionalmente justa e equilibrada em seu site intitulado "O que faz Marine Le Pen ser extrema-direita?", até mesmo a BBC lutou para responder à pergunta. Com seu infame anti-semitismo e minimizando o Holocausto, ninguém duvidaria de que o pai de Marine, Jean-Marie, poderia ser chamado de "extrema-direita". Mas devemos considerar que a abjuração do pai por sua filha não vale nada? Quando ela mesma disse que a nação francesa não deveria ser responsabilizada pelas ações de Vichy, seus críticos imediatamente se precipitaram: ela é a filha de seu pai!

Mas o que ela disse (apelando para uma parte feia de sua base) também foi uma declaração com a qual o governo britânico da época da invasão nazista (que reconheceu apenas a França Livre) teria concordado. Certamente há alguma distância entre isso e a negação do Holocausto, que existe em seu partido, certamente, mas não parece ser o caso de Marine.

Talvez o que se chama de extrema-direita hoje em dia se refira à posição em relação ao Islam e à imigração. Mesmo assim, o que Marine Le Pen disse que a política tradicional europeia não tenho dito?

Na campanha do ano passado, o ex-presidente Nicolas Sarkozy prometeu liderar uma "guerra sem piedade" contra o extremismo islâmico, acrescentando: "Na França, a única comunidade que importa é a comunidade francesa. Se você quer se tornar francês, você fala francês, vive como o francês”.

"Sarkozy é" extrema-direita"? Ou Mark Rutte? Antes das recentes eleições holandesas, o primeiro-ministro do Partido Liberal (VVD) disse aos imigrantes: "Aja de forma normal ou vá embora". E: "Se você vive em um país onde fica tão aborrecido com o modo como lidamos uns com os outros, escolha. Saia. Você não precisa ficar aqui”.

Quanto ao fechamento das mesquitas extremistas: no verão passado - depois que o padre Jacques Hamel foi assassinado no santuário de sua igreja perto de Rouen - o esquerdista Manuel Valls (que era então primeiro-ministro) se gabava de encerrar mesquitas extremistas em um esforço para acabar com o veneno do extremismo islâmico. Em agosto, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, se gabou de ter fechado 20 mesquitas extremistas apenas naquele ano. Cazeneuve representa o Partido Socialista Francês.

Na véspera da votação de domingo, muito se fez do fato de que Le Pen e sua sobrinha Marion são contra o casamento gay. Mas se isso fosse de extrema-direita, faria com que todos os governos do Reino Unido até quatro anos atrás - e todos os governos do mundo antes do século atual tenham sido de extrema-direita. Naturalmente, para os residentes de cada país há partidos que têm ecos que um estranho nem sempre pode ouvir. Parte do que, compreensivelmente, preocupa o francês vem, como o anti-semitismo, à guiza de observação.

Mas em cada país do continente que viajei, o uso excessivamente liberal da denominação está a esmagar a gama de opções políticas. Não apenas porque é usado com tanta frequência para fazer avançar uma causa em particular (como evitar diferenciar entre partidos abertamente racistas e aqueles que expulsam partidários racistas), mas também porque uma vez que uma etiqueta de extrema-direita seja colocada num partido ou em alguém, estes ficam alijados das  opções políticas.

Em fevereiro, a Chatham House divulgou uma pesquisa que perguntou a 10.000 europeus se concordavam ou não com a afirmação "Todas as migrações adicionais de países principalmente muçulmanos devem ser interrompidas". A maioria do público em oito dos dez países pesquisados (incluindo França e Alemanha) concordou com sua premissa (VER GRÁFICO ENXERTADO PELO TRADUTOR ABAIXO). Em apenas dois países, esta foi uma opinião minoritária. Em um deles - o Reino Unido - apenas 47 por cento do público concordou que toda imigração muçulmana deve ser interrompida.

Naturalmente, é o hábito da esquerda política e direita comum continuar a chamar toda essa opinião de extrema-direita, mesmo quando abrange a maioria do público. No entanto, ao fazê-lo ignora os deslocamentos políticos que ocorrem devido a eventos em vez de fascismo incipiente, e afasta os políticos da corrente principal - e não meramente ironizar – e os eleitores dos problemas sociis estão pedindo-lhes para enfrentar.

Por agora, é largamente concordado que Marine Le Pen é "extrema-direita" porque seu pai é Jean-Marie Le Pen. Que sua é a tradição de que ela vem. Que as raízes de seu partido permanecem feias e que ela está fingindo ser mais moderada do que é para entrar em cargos políticos. Isso ajudou a mantê-la fora da presidência desta vez.

Mas o cordão sanitário da Europa está se esgarçando e em algum momento pode quebrar. Qualquer pessoa que realmente quer conter a imigração deve aprender a policiar os limites bastante melhor - para não mencionar mais precisamente.

Tradução: Heitor De Paola