EXISTENCIALISMO E MORTE DO HOMEM
 

 

O perigo de se esperar muito do mundo

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

O jogo mortal, a baleia azul, onde o vitorioso é coroado com o suicídio e as séries sobre suicídio não são as únicas causas que levam os jovens a se matarem. Existe mais de treze motivos para alguém dar cabo da própria vida. O suicídio não é um acontecimento explicado por um único fator, existem muitos caminhos que levam à morte. Vou tentar expor alguns fatores que reduziram nossas expectativas em relação à vida, mas que aumentaram nossas expectativas em relação mundo. Pensa que um suicida é uma pessoa que aumentou imensuravelmente as suas expectativas em relação ao mundo e reduziu drasticamente as suas expectativas em relação à vida.

Quando os existencialistas afirmaram a morte de Deus eles prometeram um mundo repleto de sentido e valor. Mas na verdade o que aconteceu é que fomos literalmente jogados no mundo. Nós fomos jogadas na existência e por isto nós temos que abraçar o mundo, isso não resulta na construção de um mundo com sentido e valor para as pessoas, mas que fomos abandonados à própria sorte como jogadores que devem agir apostando na melhor das hipóteses e correr o risco de perder tudo e até a vida na busca desse mundo melhor, já que a própria criação, a vida humana, não possui um sentido e valor em si, cabe ao mundo conferir à vida um sentido e valor. Sendo assim só sobra ao homem apostar na melhor das hipóteses para obter o sucesso e encontrar o paraíso neste mundo e se o azar permear a sua existência, ou seja, não ser rico, famoso e atlético, só cabe no final das contas morrer ou se matar tentando.

Se somos jogados no mundo tudo depende da sorte e da contingência, já que não somos um resultado da bondade intrínseca do criador, mas uma soma de fatores da nossa condição existencial.  O ato de negar a vida humana como dom, ou seja, como um ato de bondade intrínseca do criador leva a negação da vida como valor absoluto e universal. E a vida passa a extrair o seu sentido de cada situação, ou seja, o valor absoluto e universal da vida se torna relativo.

A vida não é mais um dom, ou seja, uma graça ou dádiva, mas um bem cujo valor reside no sucesso mundano, um bem que deve ser investido e negociado podendo ser desvalorizado de acordo com aquilo que o mundo considera uma vida digna de ser vivida. Logo, a vida é relativizada como um recurso, instrumento ou meio para obter um fim mundano maior, o reconhecimento ou sucesso. Em um contexto social onde o reconhecimento significa ser famoso, rico e atlético, todos os indivíduos que não conseguiram riqueza, prestígio e poder são rebaixados existencialmente ao nada, a sua existência é de uma vida indigna de ser vivida que não tem sentido em persistir.

Isto não significa simplesmente que se deve acreditar em Deus e nutrir uma fé no transcendente, mas que ter fé na criação humana como fruto do amor e que minha própria existência é o resultado daquele que me amou antes de eu existir torna a vida melhor e nos afasta do abismo. 

Agora aqueles que lutam pela morte de Deus e a afirmação da existência mundana do homem tentam extrair do mundo um sentido e finalidade para a vida e para tal criamos paraísos artificiais para assim conseguir preencher o vazio com falsas esperança.

O paraíso terrestre é o lugar onde todos os prazeres e desejos são satisfeitos materialmente e a felicidade e a paz podem ser desfrutadas nesse mundo, não necessitando da graça, mas do sucesso mundano para se redimir de todos pecados e problemas.  No paraíso terrestre a graça não é dada por Deus, mas conseguida a partir da riqueza, prestigio e poder, já que o valor da vida de um homem não está no fato de ter nascido, mas no seu preço.

“O valor de um homem, tal como o de todas as outras coisas, é seu preço isto é, tanto quanto seria dado pelo uso de seu poder, portanto não absoluto, mas algo que depende da necessidade e julgamento de outrem.” [Thomas Hobbes (1588-1679) em Leviatã (1651)]

Existe um problema profundo naqueles homens que prometem o paraíso na terra. Eles vendem uma utopia que confere ao mundo uma série de significados que nunca irão poder existir em uma vida terrena, a não ser para alguns homens cuja maioria os cultua como deuses.

A crença no paraíso terrestre fomenta a criação de expectativas irreais diante do mundo, nutrindo os indivíduos de um otimismo sem escrúpulos diante das limitações reais.  Essa esperança construída na base discursiva de um paraíso terrestre é não só uma heresia religiosa, mas um experimento contra a realidade que edificou ao longo da história diversas armadilhas mortais, por exemplo: as drogas, as ideologias políticas, utopias, estilos de vida insustentáveis, sociedade alternativas, etc., que só tornaram o mundo pior.

“É verdade que as religiões na tradição de Abraão oferecem esperança: elas prometem um salvo-conduto da prisão deste mundo para a vida eterna, e a dureza da vida que elas governam aqui embaixo será contrabalançada por uma recompensa infinita no além. Porém, o efeito do otimismo nessa escala não é diferente do efeito do pessimismo moderado. A mensagem tal como compreendida pelo crente comum é a de que o reino de Deus não é deste mundo, que deveríamos proceder nesta vida com a cautela que nossos instintos nos sugerem, e que qualquer tentativa de construir o Céu na terra será tanto presunçosa quanto irracional. Somos servos da terra e de nossa própria natureza frágil e, ao despachar nossas para a esfera celestial onde elas não produzem nenhum mal [...] talvez seja uma das funções da religião neutralizar o otimismo.

Ao transferir nossas esperanças mais especulativas da arena da ação mundana para uma esfera que não podemos alterar, uma fé transcendental, liberta-nos da necessidade de acreditar que mudanças radicais estão ao alcance de nosso poder. Ela nos oferece uma abertura para o pessimismo...” [SCRUTON, 2015, p.39-40]

Essas esperanças mundanas pregada pelos embusteiros dos paraísos terrestres, sobretudo políticos e celebridades, levou a dissociação da esperança da fé e sobretudo do amor, o nexo das virtudes (ágape).  No lugar do paraíso real foi colocada a promessa de um paraíso terrestre, no lugar da fé foi posto o sucesso e no lugar do amor foi colocado a vontade de poder, onde o próximo só é visto como necessário na medida que serve de instrumento, recurso ou meio para realizar os meus fins e desejos. E o mais danoso é que essa concepção de vida que nega a vida como um dom ou valor em sim, destrói o fundamento do próprio amor (ágape). “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor. [Coríntios 1, 13:13]” Se o homem não ama mais a si mesmo, ao ponto de tirar a própria vida não será possível haver fé, esperança e muitos menos amor no mundo. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que este. [Marcos 12:31]”

Aquele que não ama a si mesmo não pode amar o próximo, ele não pode fazer nada pelo próximo, já que a sua própria vida não possui sentido.
Esquecemos que a vida é um ato de amor.

“O homem vem à vida por causa de um ato de benevolência, se desenvolve e cresce na medida em que é amado e que ama. Metafisicamente isso é justificado pelo fato de que o universo é uma obra de Deus, que cria tudo com amor e sabedoria. E a criatura racional, enquanto imagem e semelhança de Deus é fruto especial desse amor: é nascida do amor e para amar. [...] somente o amor recebido pode ativar no homem o desejo de realizar o bem e promover a justiça.” [RODRIGUES ALVES, 2015, p.51-4]

O mundo das celebridades e a propaganda do seu estilo de vida pela mídia como o que existe de mais elevado e superior entre os homens constitui uma forma de criar ídolos de carne e osso que as pessoas devem adorar como um santo, esse endeusamento das celebridades dada a veneração do seu estilo de vida leva a perda do sentido da realidade, já que o estilo de vida das celebridades é insustentável em todos sentidos. E o que é mais interessante é escutar as especulações politicamente corretas das celebridades sobre a relação entre suicídio e sociedade, onde criminalizam a sociedade como: racista, sexista, fascista, retrograda, etc. Elas nunca se culpam pelo estilo de vida que gostam de expor na mídia como o ideal de vida.  As celebridades acreditam que os problemas do mundo são problemas de vontade ou de um melhor sistema global e que basta um bom planificador para ajustar e modificar a realidade a partir de um novo sistema e assim as pessoas poderão reinar no sucesso que os celebrados desfrutam, mas que não toleram concorrentes ou partilha. E quando essas celebridades resolvem ajudar o próximo, fazem com a vontade do falso filantropo que dá com uma mão esperando receber com as duas. Ou seja, gastam dinheiro para poder receber aplausos. As celebridades colocam em prática o fundamento do politicamente correto: ame a humanidade, mas odeie o próximo.

Em um mundo onde o estilo de vida reputado como o mais elevado é o modo de viver das celebridades, onde só os famosos, ricos e atléticos possuem o seu lugar ao sol, sendo o homem comum uma nulidade que só serve para aplaudir. Esse paraíso terrestre embasado em um mundo onde todos temos que ser celebridades só serve para tornar o mundo um lugar pior.

Certa dose de pessimismo nutrido por uma imaginação distópica em relação ao mundo serve como antídoto contra o veneno da utopia apresentada nas formas de paraísos terrestres, por exemplo ideologias políticas, Neoespiritismos, estilos de vida insustentáveis, sociedade alternativas, Drogas, celebridades, etc.  

“A atual falta de compreensão religiosa sobre a condição humana – que o homem é uma criatura caída para o qual a virtude é necessária, embora nunca completamente alcançável – representa uma perda, e não um ganho, para uma verdadeira sofisticação da vida. Seu substituto secular – a crença na perfeição da vida na Terra por meio da extensão sem limites do leque dos prazeres – não é apenas imaturo por comparação, mas muito menos realista em sua compreensão da natureza humana. ” [DALRYMPLE, 2015, p.80]

Os existencialistas com o objetivo de emancipar o homem das alienações metafísicas, os valores universais e absolutos, prometendo edificar o paraíso terrestre neste mundo, acabaram matando o próprio homem. Talvez a lição que podemos tirar do pessimismo é que quanto menos expectativas nutrirmos do mundo mais expectativas nutrimos da vida.

Fontes:

DALRYMPLE, Theodore, Nossa cultura ... ou o que restou dela: 26 ensaios sobre a degradação dos valores. São Paulo, É Realizações Ed., 2015
RODRIGUES ALVES, Anderson Machado, Ser e Dever-ser: Tomás de Aquino e o debate filosófico contemporâneo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull), 2015
SCIACCA Michele Federico, Morte e Imortalidade, São Paulo: É Realizações, 2011
SCRUTON Roger, As Vantagens do pessimismo: e o perigo da falsa esperança, São Paulo, É Realizações, 2015
UNAMUNO Miguel de, Do Sentimento Trágico da Vida nos Homens e nós Povos. São Paulo, Martins Fontes 1996
KRAUSS Heinrich,  O Paraíso: de Adão e Eva às utopias contemporâneas, São Paulo, Globo, 2006
KIMBALL Roger, Experimentos contra a Realidade, São Paulo, É Realizações, 2016