OS RISCOS DAS INTERVENÇÕES OCIDENTAIS NO MUNDO ISLÂMICO
 

 

Algumas lições sobre a Intervenção no mundo Islâmico.

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

Os Intervencionistas e os idealistas liberais devem aprender que não pode existir instituições democráticas em um lugar onde não existe o substrato cultural ocidental.  As instituições democráticas só podem operar em um ambiente de valores coerentes com as liberdades de expressão, organização, crítica e iniciativa. No caso do mundo islâmico o núcleo de valores, as normas sociais, sobretudo as Leis islâmicas são absolutamente refratários aos valores Ocidentais e por mais que eles sejam persuadidos ou coagidos para adotar formas democráticas, eles nunca vão aceitar o seu conteúdo, pelo simples fato do Islam não tolerar o substrato cultural que formou o Ocidente, ou seja, não aceita a moral judaico-cristã, a filosofia grega, o Direito Romano, o Estado laico (separação entre igreja e Estado) e as liberdades.
 

A Intervenção é a ação planejada de um órgão com o objetivo de corrigir os problemas do corpo social que é incapaz de resolvê-los de forma espontânea e autônoma, necessitando da intervenção para correção. A intervenção é pontual e momentânea, ou seja, cirúrgica, ela não pode agir de modo permanente e nem construir uma nova sociedade.

Os problemas do intervencionismo são três: primeiro a ação coativa é muitas vezes contraproducente, servindo de fermente para movimentos subversivos fomentarem revoltas violentas, segundo a incapacidade das “Boas Leis e Instituições” em se adaptarem aos diferentes contextos culturais e o terceiro é mais importante problema da intervenção é que para derrubar um governo com baixa popularidade, mesmo sendo um governo autocrático de um ditador, por exemplo: Bashar al-Assad, se deve garantir as condições para que outro grupo se torne governo e este outro grupo para governar deve ter a capacidade de forjar um consenso popular mínimo e possuir força para resistir aos ataques da oposição violenta e além disto se deve perguntar sempre se este grupo capaz de se manter no poder não será um governo mais tirânico do que o governo o derrubado.   

A intervenção não pode levar a sociedade a praticar um regime contrário à sua índole e costume e muitos menos ela pode impor Leis e instituições democráticas onde a cultura considera as instituições e as leis democráticas um inimigo. Não é possível edificar uma sociedade do zero.
 

Os planejadores de instituições e leis democráticas, nunca conseguiram fazer com que os conteúdos morais dessas instituições e leis deitem raízes nos corações e mentes muçulmanas, pelo fato dos seus valores culturais serem a própria negação dessas instituições, que são julgadas pelo Islam como elementos alienígenas que buscam expandir o imperialismo colonial do Ocidente. O fato de um grupo ou personalidade argumentar em nome da razão e da justiça, não o torna uma autoridade reconhecida, na sociedade muçulmana o princípio da autoridade, ou seja, a razão e a justiça residem na Lei Islâmica (Sharia). Para o muçulmano toda lei que não for islâmica é ideologia, idolatria e ditadura, ele não pode tolerar a existência de Leis e instituições criadas pelo homem.

Para o muçulmano o Islam é um acontecimento religioso, cultural e político que inaugurou o processo civilizatório dos povos da península arábica em torno de um Deus (Allah), uma língua (árabe), um livro sagrado (Corão), um modelo de Homem (Muhammad) e uma Lei (Sharia) que forneceu a jurisprudência (Fiqh), a organização social (Ummah), a filosofia (Falsafa), a teologia (Kalam), a mística (Sufiya) e a forma de governo legítimo (Califado) para o mundo árabe.
Antes do Islam havia diversos deuses, clãs e costumes bárbaros e foi o aparecimento do Corão e da figura sagrada do profeta Muhammad (570-632 d.C.) que significou o fim da ignorância (Jahil) e da barbárie (Jahiliyyah). Para o muçulmano o Islam significa o que existe de mais sagrado, civilizado e universal no mundo.

O Profeta Muhammad (570-632 d.C.) foi  ao mesmo tempo, o  chefe  político e espiritual do Islam, foi este homem detentor do poder espiritual e temporal que converteu pela palavra e pela espada os povos, conseguindo a vitória da Civilização, o Islam, contra a barbárie (Jahiliyyah). Todo o governo ou organização política no Oriente Médio só pode ser considerado legítimo se continuar islamizando o mundo e se mostrar como sucessor políticoreligioso do profeta Muhammad, ou seja, ser considerado um Califa ou Khalifa.

O Califa, o continuador do profeta Muhammad, tem a responsabilidade de conduzir a política e a vida social segundo a Sharia (Lei Islâmica) devendo sempre procurar conservar e expandir o Islam.

As potências Ocidentais detêm o poder de fazer muitas coisas, mas não podem reconstruir do zero uma sociedade inteira com base num plano, por mais ilustrados ou notáveis que sejam seus agentes eles não podem ir contra a natureza de uma sociedade que é intrinsecamente islâmica, e isto significa que não é só o governo que é islâmico, a oposição e a sociedade inteira é islâmica e muitas vezes reclamam um reforço do Islam e não um abrandamento das Leis Islâmicas.
 

No desenvolvimento das sociedades islâmicas nunca existiu a mão invisível, ou seja, a moral social ocidental que orientava as ações humana em torno de valores que só podiam edificar e modificar instituições através da liberdade, no mundo Islâmico a mão que balançou o seu berço e conduziu o seu desenvolvimento foi a mão visível daqueles que aplicavam e ainda aplicam a Lei de Allah, a Sharia.  Por isto que é um erro pensar como os liberais idealistas que a democracia é um mero produto do laissez-faire (deixai fazer) que independe de valores e basta deixar os muçulmanos se moveram espontaneamente que caminharão para a democracia.

Os muçulmanos nunca edificaram uma democracia liberal, para eles o único governo legítimo e legal é o Califado.

Os grupos em guerra no Oriente Médio não lutam e matam pela democracia, mas pelo Califado, é o Califado a principal fonte dos dissensos e guerras no Oriente Médio e não a presença de potências estrangeiras ou ideais Ocidentais, como muitos querem apresentar. Um dos motivos da guerra na Síria está na disputa milenar pelo Califado entre Sunitas e Xiitas, e tal disputa não vai terminar com a vitória de Xiitas sobre Sunitas ou vice-versa, porque a disputa pelo Califado também se apresenta entre os próprios Sunitas, como exemplifica o Sunismo Salafistas ou Wahhabistas.

Os muçulmanos lutam e morrem para garantir um governo islâmico, um Califado, já que o Califa (Khalifa) é a única autoridade legal e legítima para o muçulmano. Somente idealistas liberais podem acreditar que esses conflitos serão resolvidos com a instauração de Leis e instituições democráticas.
Intervir no Oriente Médio e na África do Norte significa colaborar para que algum grupo venha a ser Khalifa, ou seja, governo islâmico e nesta situação a melhor solução é torcer para que o grupo menos islâmico esteja no poder.
Se as potências Ocidentais querem intervir no mundo Islâmico elas devem apreender que não estão lá para escolher entre o bem e o mal, mas para decidir pela lógica do mal menor.


Fontes
Texto sobre o Califado e a Guerra na Síria
http://heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=6489
http://esfingepolitica.blogspot.com.br/2016/10/a-guerra-na-siria-e-questao-do-califado.html
Texto sobre Wahhabismo ou Sunismo Salafista
http://heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=6855
http://esfingepolitica.blogspot.com.br/2017/03/raizes-do-wahhabismo.html

Textos e livros sugeridos
CARVALHO Olavo de, As garras da Esfinge: René Guenon e a islamização do Ocidente, Verbm, Ano I, Número 1 e 2, Julho-Outubro de 2016
http://www.olavodecarvalho.org/semana/julhoverbum.html
DE PAOLA Heitor, Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia I), 28 de junho de 2010. http://www.midiasemmascara.org/artigos/religiao/11186-subsidios-para-entender-o-islam-e-as-bases-de-sua-diplomacia-i.html
DE PAOLA Heitor, Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia II), 01 de Julho de 2010. http://www.midiasemmascara.org/artigos/religiao/11197subsidios-para-entender-o-islam-e-as-bases-de-sua-diplomacia-ii.html
DE PAOLA Heitor, Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia III), 22 Julho de 2010. http://www.midiasemmascara.org/artigos/religiao/11266-subsidios-para-entender-o-islam-e-as-bases-de-sua-diplomacia-iii.html
HAYEK Samir, Alcorão Sagrado. São Paulo, Ed. Marsam, 1994.
HERNANDEZ  Miguel Cruz. Historia del pensamiento en el mundo islámico. Três Volumes. Madrid: Alianza Editorial, 2000.
MURAD, Mahamoud bin Ridha The Life & the Aqeedah of Muhammad Bin Abdul-Wahhab, 2º Ed. Revised Edition, Introduction by Sheik Saleh bin Abdul Aziz Al-Ash-Shaikh, 2000