A BLOODY DAY EM LONDON TOWN
 

 


A bloody day in London town [1]

Clifford May

WASHINGTON TIMES

28/03/2017

As ideologias que comandam a carnificina não podem ser combatidas até serem compreendidas

"O sangue do Kafir é Halal para você, então faça-o jorrar". Essa é apenas uma das manchetes mais atraentes em um número recente de Rumiyah, uma revista online publicada pelo Estado Islâmico, também conhecido como ISIS e ISIL.

Um "kafir", é claro, é um não-muçulmano. "Halal" significa religiosamente permitido. Quanto a Rumiyah, isso é Roma em árabe, uma das capitais Cristãs que os líderes do estado islâmico esperam conquistar. (A outra grande capital Cristã, Constantinopla, caiu aos soldados do califado em 1453. Agora é chamado de Istambul).

Khalid Masood - o convertido ao Islam que na semana passada organizou um ataque terrorista nas Casas do Parlamento de Londres, sede e símbolo da democracia britânica - seria um leitor de Rumiyah? Se assim for, ele poderia ter sido inspirado por um artigo no final do ano passado, instando  pessoas como ele a fazer exatamente o que ele fez: "conduzir um veículo em uma multidão de não-muçulmanos, esmagando seus corpos com a estrutura externa do veículo, esmagando suas cabeças, torsos e membros sob as rodas e chassis do veículo". Masood depois saiu do veículo e esfaqueou um policial - uma tática usada frequentemente contra israelenses nos últimos anos.

A resposta ocidental a tais atrocidades tornou-se ritualística. A polícia diz que eles estão investigando e estão incertos sobre o motivo do agressor. Chefes de estado estrangeiros condenam o ataque, oferecem condolências e solidariedade. Líderes da nação atacada desafiadoramente anunciam que a vida continuará e ninguém será intimidado.

Em seguida, vem o debate sobre se o Islam deve ser implicado ou vindicado. Neste caso, um deputado conservador, Michael Tomlinson, perguntou à primeira-ministra Theresa May se ela concordava que o termo "terror islâmico" era inadequado.

"Concordo totalmente, e é errado descrever isso como "terrorismo islâmico", ela respondeu. É “terrorismo islâmico”.

Inteligente da parte dela. Ela não descartou o ataque como "extremismo violento". Ela não sugeriu que o atacante poderia tão facilmente ter sido um rastafari, zoroastriano ou budista. Ela reconheceu tacitamente que as ideologias baseadas nas escrituras islâmicas dirigem tais ataques terroristas enquanto evitam a implicação de que a maioria dos muçulmanos aprova tais ideologias.
Esta explicação matizada deve ter se tornado a norma há muito tempo. Em vez disso, muitos na esquerda insistem que o Islam é simplesmente e apenas uma "religião de paz". Muçulmanos que contradizem "pervertem" o Islam. Os não-muçulmanos que contradizem isso são islamófobos.

Enquanto isso, muitos na direita acreditam que só os muçulmanos estão praticando o "verdadeiro" Islam. Eles concordam implicitamente com os muçulmanos como os sufis, ismaelitas e ahmadis do século 21 são hereges, assim como o rei Abdullah II da Jordânia e o presidente egípcio Abdel Fattah el Sisi (ambos foram à guerra contra os muçulmanos) e os milhões de curdos que rejeitam o islamismo porque reconhecem a ameaça existencial que ela representa para sua orgulhosa nação.

O islamismo não é uma ideologia complicada. Hassan al-Banna, que fundou a Irmandade Muçulmana em 1928, escreveu: "É a natureza do Islam dominar, não ser dominado, impor sua lei a todas as nações e estender seu poder a todo o planeta". Motos da Irmandade Muçulmana: "Jihad é o nosso caminho. Morte por causa de Deus é o nosso desejo".

Alguns muçulmanos acreditam que o caminho para o poder só pode ser resolvido com a espada. Podemos chamá-los de jihadistas. Alguns islamistas veem outros caminhos, por exemplo através da urna ou de mudança demográfica. Alguns muçulmanos até afirmam evitar a violência. Mas inferir que abraçam a não-violência como um princípio seria um erro.

Todos os muçulmanos, mesmo aqueles engravatados que não usam barba, estão comprometidos com a supremacia de sua religião e sua comunidade, a umma, a "nação do Islam", sobre todas as outras religiões, comunidades e nações.

Ninguém diria que quando condenamos o "supremacismo branco" corremos o risco de ofender todas as pessoas palidez de sua pele. Então por que é "politicamente incorreto" falar francamente - e condenar inequivocamente - o supremacismo islâmico?

Outro fato muitas vezes evitado: os islâmicos podem ser xiitas, bem como sunitas. Os primeiros ataques islâmicos contra americanos (piratas da barbárie, não obstante) foram realizados em 1983 em Beirute, primeiro contra a embaixada dos EUA, em seguida contra os quartéis dos Marines dos Estados Unidos que estavam lá para servir como forças de manutenção da paz. A maioria dos analistas concorda que o Hezbollah, uma organização xiita financiada e instruída pela República Islâmica do Irã, foi responsável.

Nem o Hezbollah nem os governantes do Irã se tornaram mais moderados ao longo das décadas que se seguiram. O líder supremo iraniano Ali Khamenei vê a si mesmo como líder de uma revolução jihadista global contra os Estados Unidos e a ordem mundial liberal. O significado disso parece ter escapado a muitos políticos.

Como, por exemplo, o presidente Obama, que não entendeu que o acordo que ele fez com os governantes do Irã os colocará como membros legítimos do clube de armas nucleares em menos de uma geração - mesmo que a "Morte para a América!" permaneça seu objetivo e grito de guerra?

E o Presidente Trump compreende que se a derrota do Estado Islâmico na Síria e no Iraque ainda fortificar Teerã, a vitória americana será uma vitória de Pirro? Os islâmicos sunitas e xiitas são rivais - não inimigos. Nem seria de questionar o autor anônimo do artigo de Rumiyah, apontado acima, que afirma que "instilar o terror nos corações de todos os descrentes é dever de todo muçulmano". Se esse ponto de vista é baseado no verdadeiro Islam ou uma perversão do Islam realmente não importa. De qualquer maneira, é uma expressão das ideologias mais dinâmicas e letais que agora se espalham pelo mundo.

Precisamos estudar mais seriamente essas ideologias. Precisamos discutir mais francamente o que os mçulmanos pretendem fazer com aqueles que se recusam a abraçá-los ou a apaziguá-los. Só então podemos esperar formular uma estratégia coerente e eficaz para nos defendermos.

NOTA DO TRADUTOR:

[1] O título é um eferência a A Foggy Day in London Town, canção popular composta por George Gershwin, com letras de Ira Gershwin, introduzido por Fred Astaire. Cliff May substitui foggy (nevoento) por bloody (sangrento).

Tradução: Heitor De Paola

 

 

Clifford D. May é presidente da Foundation for Defense of Democracies e colunista do The Washington Times. Esteve no Brasil a convite do Editor do site para o Seminário sobre Democracia e Estado de Direito, São Paulo, 2006