ESTE ARTIGO DESMENTE A FALÁCIA DE QUE SENDO NATURAIS DO PAÍS O ISLAM NADA TEM A VER
 

 


Como o ISIS recruta membros na internet

Por Lena Kampf, Georg Mascolo e Andreas Spinrath

SÜDDEUTSCHE Zeitung

1° de fevereiro de 2017

• Isis busca criminosos na internet, os instiga e os convence a realizarem atentados os mais cruéis possíveis.
• BND [1] se pronunciou após informações do Süddeutsche Zeitung, NDR [2] e WDR [3] sobre os “Mentores do ISIS”.
• Safia S. também foi recrutada e atraída pela internet.
• Serviço Secreto e Forças Policiais expandiram as investigações na
internet.

Ter um mentor geralmente funciona bem. Alguém com experiência, o conhecimento e a faculdade de saber o que dizer aos mais jovens. Em todo o caso, as palavras são compreendidas, desde a Odisséia de Homero, onde a personificação de Mentor, aquele que orienta e aconselha o filho de Odisseu, a investigar o seu pai. 

Entretanto a palavra defesa do Estado Alemão, no momento, possui um outro significado. Está ocorrendo uma nova e perigosa maneira de terrorismo, na tentativa do chamado Estado Islâmico, de encontrar criminosos na internet, incitando-os a realizarem os tipos de ataques terroristas mais cruéis orientando-os à distância.

O BND se pronunciou após informações divulgadas pelo Süddeutsche Zeitung, NDR e WDR sobre os “Mentores do ISIS”. O sistema é mais ou menos bem sucedido e possivelmente não há lugar mais favorável a ser utilizado do que a Alemanha. “Nós observamos esse fenômeno há alguns anos e podemos afirmar que há casos que são diferentes. Os motivos aumentaram devido à digitalização do mundo e estão associados às mudanças dos modos de meios de comunicação”, afirmou o Procurador Geral Peter Frank.

“Por favor, deixe-me fazer amanhã”, escreveu uma vez Safia S. de 15 anos de idade em inglês, na noite anterior ao dia 26 de fevereiro de 2016, quando um policial federal teve a garganta perfurada por uma faca de cozinha e ficou gravemente ferido correndo risco de vida. O colega de “chat” de Safia tinha o nome de “Leyla” e respondeu segundos mais tarde: “Se você tiver planejado bem, execute e terá sorte”. Leyla era um nome falso de um homem numa sala de bate-papo, cuja existência mais tarde foi admitida pela executora do atentado.
   

O Procurador Geral conseguiu reconstruir o diálogo feito e descobriu que o homem era um integrante do ISIS procedente da Síria. O homem encarregou a Safia S. de fazer um vídeo de confissão e também a enviá-lo. “Aliás, eu não tenho niqab [4] e apenas cobri meu rosto”. Leyla escreveu de volta: “Deus irá lhe recompensar”. E assim, ele deu dicas para a execução do crime: “Peça ao policial para ir à esquina com você, então pegue a faca e como você já sabe, use-a como estivesse cortando uma maçã”.
   

Safia S. entendeu o código. “O que você acha que eu deva dizer para ele ir junto comigo?”, perguntou Safia S. “Diga a ele que está com medo de alguma coisa e que precisa de ajuda. Daí tudo fica mais fácil”. De acordo com o plano do terrorista, Safia S. deveria, após esfaquear o policial, roubar sua arma de serviço para terminar de matar o “infiel” [5].
   

O plano não funcionou. Safia foi ferida e dominada pelos colegas do policial, na estação central de Hannover e foi mandada para a prisão, sendo julgada como culpada e condenada a 6 anos de prisão pelo Tribunal do Estado da Baixa Saxônia [6]. Seu defensor pediu revisão da sentença aplicada. O caso de Safia é apenas o primeiro entre muitos onde os conselheiros do ISIS permaneceram “próximos” do executor durante um atentado. No ano passado, ocorreram cinco tentativas de ataques, das quais três foram bem sucedidas e investigadores confirmaram assistências virtuais em mais outras investidas.
   

Em Würzburg, a refugiada Riaz A. de 17 anos foi doutrinada por meses e até hoje o seu mentor ainda não foi identificado. Ele tentou, sem sucesso, convencer a adolescente a realizar um ataque usando um automóvel ao invés de um machado. No caso do atentado suicida de Mohammad D., 6 dias mais tarde, ele tentou explodir uma taverna em Ansbach. Nesse meio tempo, foi confirmado que um mentor do ISIS o encorajou por vezes a executar o atentado, quando repentinamente ele desistiu: “Cara, o que está acontecendo com você? Confie em Deus e vá para aquele restaurante!”
   

Em Leipzig [7] Jaber Al-Bakr também foi preso devido a uma suposta ligação com apoiadores do ISIS, pelo visto, ao menos um deles viveu na cidade capital do Estado Islâmico, Raqqa.

Muitas vezes o contato se inicia com orientações para a vida
   
Um padrão foi identificado. Freqüentemente, a rede de ações dos salafistas [8]  começa com uma espécie de aconselhamento feito nas redes. O candidato ou candidata, radical o suficiente, é encaminhado a um interlocutor especial e partir daí, uma conexão é feita. 
   

Um mentor especial e bem sucedido é o francês Rachid Kassim. O ex-assistente social cuida temporariamente de 100 apoiadores digitais. Ele esteve por detrás do atentado a um padre francês de 85 anos, no norte da França, em julho passado, onde o sacerdote acabou sendo assassinado.
   

Não se sabe ainda, se os denominados mentores se conhecem ou são coordenados por algum tipo de central. No entanto, pelo menos 2 alemães que se dispuseram a realizar atentados, provavelmente tiveram contatos com o ISIS, e ao que se parece, trocaram entre si números de telefones. Ao menos se sabe, que os atentados na Europa são planejados e comandados em um lugar localizado dentro do continente. 
   

Safia S. também inicialmente contactou a australiana Shadi Jabar Khalil Mohammed, a qual provavelmente, seja uma recrutadora pertencente a um dos postos mais altos do ISIS. Nos círculos de investigações, presume-se que o contato de Safia S. e Leyla foi feito de maneira intermediada. O irmão de Shadi Jabar, de 15 anos de idade, atirou num policial na cidade australiana de Parramatta, em outubro de 2015. Em maio de 2016, Shadi foi morta em um ataque realizado por um drone dos EUA, na Síria.
   

Até o momento, investigadores antiterror analisam preliminarmente os celulares dos suspeitos. Com a parceria do serviço secreto americano e do FBI, conseguiu-se quebrar os códigos que bloqueavam o acesso aos chats realizados e neste momento as autoridades examinam se Anis Amri, [9] também foi orientado da mesma maneira. Até agora nada foi confirmado.
   

No chat que já está sendo decodificado, Anis Amri se comunicou no mesmo dia do crime às 19:15 hrs, perto do momento dele deixar a mesquita em Berlim, com uma pessoa não identificada. Sabe-se que os integrantes da conversa gostariam de manter contato com Amri e rezar por ele. Mais tarde Amri escreveu: “Agora eu estou dentro da cabine do motorista do caminhão”.
   

Há uma preocupação especial com uma tendência. Os últimos jihadistas alemães que viajaram para treinamento com o ISIS, retornaram da organização terrorista, vindos principalmente do Iraque. Estes estão sob uma forte pressão para que sejam bem sucedidos em seus ataques.  

Parece que há um novo sistema em vigor, no qual os recrutados do ISIS, não precisam mais freqüentar campos de treinamento. O engajamento e as orientações se transferiram para a internet, entretanto todo caso é examinado meticulosamente. Serviços secretos e forças policiais expandiram e consolidaram suas ações de atuação na internet.

No BKA [10], psicólogos estão se dedicando a novas formas de ação. Agentes especializados analisam regularmente diálogos e declarações. O ISIS usa uma forma variante de palavras nos diálogos digitais. Um exemplo é o caso de um sírio de 16 anos, Mohammad J, que em setembro foi detido em um albergue de refugiados na cidade de Colônia. Ele foi acusado de preparar crimes que envolviam atos de motins e revoltas. No fim de fevereiro um processo foi aberto contra ele.

Como um jovem poderia se tornar um provável terrorista e julgado capaz de realizar um atentado a bomba?

No início de 2016, Mohammad J chegou com sua família à Alemanha pedindo asilo, vindo de Damasco, na Síria. Mohammad J ficava visivelmente atormentado com uma simples tentativa de realizar uma pergunta a ele. Em abril, ele entrou em contato com Abu Jawad, via Facebook. Ele perguntou se Jawad era um simples muçulmano na Alemanha ou teria algum envolvimento com o ISIS. Nas perguntas seguintes, quis saber se o ISIS iria matá-lo, caso ele vivesse junto aos infiéis na Alemanha.

Essas foram as perguntas feitas por Mohammad J. a Abu Jawad, que não respondeu a nenhuma delas. Mas a perguntas feitas não foram suficientes. Mohammad J, digitou no Google as mesmas questões, usando seu celular, além de fazer o mesmo em milhares de chats na internet, dos quais ele estava imerso. Ele perguntava se a chanceler Ângela Merkel iria lhe dar dinheiro, comida e se deveria viver ao lado dos infiéis germânicos.

Essas foram as perguntas de um jovem que chegou com sua família, pela primeira vez em um mundo completamente estranho. Em 20 de maio, alguém repentinamente o responde. Era Bilal.

Bilal evidentemente encontrou um tom certo, variando seu discurso entre ser um irmão e um professor, alternando entre um senso de humor e a fúria. Repetidamente, Bilal Mohammad confessou um segredo. Ele era do ISIS. Então, Mohammad J perguntou  se o havia traído, daí Bilal não hesitou em dizer que não.

Nos meses seguintes, as mensagens do Facebook e os chats no Telegram foram criptografados. Bilal contou a respeito do ataque do ISIS à Alemanha e Mohammad J disse que os alemães são boas pessoas e muito prestativas. Ficou tudo mais claro até então. Mohammad se tornara um infiel.

Com a resposta, o adolescente de 16 anos, tornou-se o comandado de um adulto de 24 anos, mentor do ISIS. Mohammad Bilal mostrou sua face radical islâmica e o ambiente mudou. Em um grupo de chat secreto, certamente freqüentado por seguidores do ISIS, a construção de uma bomba era organizada. Bilal auxilia com uma lista de compras para a execução do ato: um relógio, fogos de artifício e enxofre.

Poucos dias antes de ser detido, Bilal o mandou plantar uma bomba. Mohammad indagou mais uma vez, se teria que matar alemães. A resposta de Bilal foi curta.

Ele deveria agir.

NOTAS DO TRADUTOR:

[1]Bundesnachdienst ou Serviço Federal de Inteligência.
[2] Norddeutscher Rundfunk.  Empresa pública de rádio e televisão situada em Hamburgo.
[3] Westdeutscher Rundfunk.  Empresa pública de rádio e televisão situada em Colônia.
[4] Véu muçulmano que cobre o rosto das mulheres.
[5] São aqueles que não seguem o Islã.
[6] Estado da Alemanha conhecido como Niedersachsen. Julgamento realizado no tribunal da cidade de Celle.
[7] Grande cidade da Alemanha localizada na parte oriental do país.
[8] Movimento ortodoxo islâmico dentro do movimento sunita.
[9] Terrorista que atropelou diversas pessoas com um caminhão em Berlim durante o Natal de 2016.
[10] Bundeskriminalamt . Agência Federal de Investigações da Alemanha.

Tradução: Márcio Alexandre