UMA VISÃO DO ISLAM

 

Uma vista panorâmica da religião islâmica ou regime islâmico



Ricardo Gustavo Garcia de Mello



O Islam é antes um regime de vida no sentido árabe de Din do que uma religião no sentido latino de religare.  É um regime totalitário que abarca simultaneamente o religioso, moral e o político num só sistema, e não a busca pela ligação com o sacro transcendental. É somente a sharia, a lei islâmica, que pode separar o bem do mal o sagrado do profano o lícito do ilícito o certo do errado o permitido do proibido etc.



Nos Estados seculares onde existe a separação entre Estado e igreja, é comum os analistas insistirem no erro de restringirem o termo regime para caracterizar a organização do Estado e o modo de governo. Mas o Islam mantém o sentido original do termo regime. Regime significa o conjunto de Leis e normas que regem e organizam todas as dimensões da vida em sociedade.

Nos termos de Leo Strauss (1899-1973).



&ldquoO regime é a ordem, a forma, que dá à sociedade seu caráter. O regime é, portanto, um modo específico de vida. O regime é a forma da vida enquanto viver junto, o modo de viver da sociedade e em sociedade, tendo em vista que esse modo depende de maneira decisiva da predominância de seres humanos de determinado tipo, da dominação manifesta da sociedade por seres humanos de um determinado tipo. O regime significa aquele todo que hoje temos o hábito de enxergar primariamente em uma forma fragmentada: o regime significa simultaneamente a forma de vida de uma sociedade, seu estilo de vida, seu gosto moral, forma de sociedade, forma de Estado, forma de governo e espírito das leis.&rdquo [STRAUSS, 2016, p.51]



O Islam se enxerga no dever de orientar, organizar e legislar sobre todas as dimensões da vida pessoal e pública do indivíduo.

O Islam foi revelado por Allah (&ldquoDeus&rdquo) para não ser apenas uma fé confessional pessoal ou opcional, mas um regime de vida totalitário que deve estar presente em todas as dimensões da vida individual e coletiva. Sendo o conteúdo da revelação islâmica um conjunto de normas e códigos de conduta pessoal e social &ndash Allah é a única fonte de autoridade. A própria balança da justiça, as penalizações e recompensas, deve ser orientada pela Sharia, a Lei de Deus.



É importante compreender que para o muçulmano o Islam é um acontecimento religioso, cultural e político que inaugurou o processo civilizatório em torno de: um Deus (Allah) uma língua (árabe) um livro sagrado (Corão) um modelo de Homem (Muhammad) uma Lei sagrada (Sharia) jurisprudência (Fiqh) Comunidade/fraternidade (Ummah) filosofia (Falsafa) teologia (Kalam) mística (Sufiya) e forma de Estado (Califado) para o mundo. Foi a revelação do Corão para Muhammad - o último e definitivo profeta de acordo com o Islam - que selou as revelações divinas e difundiu o verdadeiro monoteísmo para o mundo. O Islam significa para o muçulmano o fim da ignorância (Jahil) e da barbárie (Jahiliyyah). Aquilo que existe de mais sagrado, civilizado e universal no mundo.



O berço e o centro do Islam é geograficamente e espiritualmente a Península Arábica, hoje Arábia Saudita. Foi lá onde o profeta e fundador do Islam, Muhammad (570-632 d.C.), nasceu e morreu. E é na Arábia Saudita onde se encontra as cidades mais sagradas do Islam - Makkah (Meca) e Madinah (Medina).



Meca (Makkah) além de ser a cidade onde nasceu o profeta Muhammad, 570 d.C., é o local onde Muhammad recebeu a revelação de Deus, o Corão.  É o local mais sagrado do mundo para o muçulmano, lá está a casa do primigênio, a Kaaba, o berço e morada do primeiro ser humano da terra, Adão. Um dos deveres do muçulmano é realizar orações diárias voltadas à Meca, e se o muçulmano tiver condições deve realizar a peregrinação para Meca, a Hajj, para ver a Kaaba.  Medina (Madinah) foi a cidade que o profeta Muhammad e seus companheiros (sahaba) encontraram abrigo durante a Hégira (622 d.C) - o período de fuga de Muhammad e dos seus companheiros (sahaba) diante de ameaças de morte. E além disto Medina é o local onde o Islam conseguiu se expandir, sendo também o local onde reside o túmulo do profeta Muhammad que morreu em 632 d.C.



O Profeta Muhammad (570-632 d.C.) foi ao mesmo tempo o chefe político e religioso do Islam, o detentor do autoridade espiritual e poder temporal que converteu pela palavra e pela espada os povos. Conseguindo a vitória da Civilização, o Islam, contra a barbárie (Jahiliyyah). Todo o governo ou organização política no mundo islâmico é considerado legítimo se for um Califado, ou seja, um Estado Islâmico que se orienta pela Lei Islâmica (Sharia) em todas as dimensões da vida, assumindo o compromisso confessional e constitucional de conservar e expandir o Islam no mundo. O único governo considerado legítimo é o governo do Khalifa - o continuador político e religioso da missão do profeta Muhammad.



O Islam antes de ser uma religião confessional é uma religião legislativa que necessita da obrigatoriedade para existir, não tolerando nenhuma separação entre a confissão pessoal e a vida pública, ou seja, entre o Estado e a Mesquita. Somente a vida vivida na Lei Islâmica (sharia) é digna.  O Islam não diferencia o crime do pecado, ou seja, para o Islam todo pecado é crime. Já para o cristianismo todo crime é pecado, mas nem todo pecado deve ser penalizado como crime.



O Islam nunca vai tolerar a autonomia do poder temporal e de âmbitos seculares, ele só pode existir como confissão pública e constitucional de uma fé que tenha um poder coativo capaz de abarcar todas as dimensões da vida pessoal e pública do indivíduo &ndash o Islam é totalitário.  A revelação islâmica é a revelação da Lei de Deus para o homem, a Sharia. A Sharia é a Lei universal, perfeita e perene, a Lei de Deus que é distinta da Lei do homem &ndash as leis circunstanciais, imperfeitas e perecíveis.



Foi o Islam que revelou a Ordem justa e boa para a humanidade.



O termo Islam significa submissão, e não salam (paz), e o significado de muçulmano (munin) é submisso. Por isto que o Islam, não é a religião da salvação, mas da submissão.                                                                                                                                      



A vida do muçulmano é constituída de cinco pilares.



1) Chahada ou declaração de fidelidade ao Islam.

2) Salat ou cinco orações diárias obrigatórias: a) ao amanhecer (fajr) b) ao meio dia ou ponto alto do sol (dhur) c) no pôr do sol (ash) d) logo após o pôr do sol (maghrib): e) e oração noturna (isha).  A oração deve ser precedida do ritual de purificação, Wudu, que consiste em lavar com água as mãos, os braços até os cotovelos, e a cabeça incluindo a face e narinas. Caso não seja possível, o muçulmano deve rezar no ambiente em que estiver. As orações devem sempre serem feitas em árabe e na direção da Kaaba em Meca.

 3) Zakat: o dízimo pago para o Islam.

 4) Sawn: o jejum no mês do Ramadan.

5) Hajj: a peregrinação à Meca. 



As provas da vida, em especial, o martírio (Shuhadá) servem para separar o muçulmano (mumin) do idólatra (kafir), e do hipócrita (munáficun).  A inovação (bid&rsquoah), a idolatria (chirk) e a hipocrisia (nifaq) são os descaminhados que levam o ser humano para se tornar o combustível do inferno.



A introdução da inovação (bid&rsquoah) na religião e nos costumes leva ao cometimento de crimes de idolatria ou politeísmo (Chirk). O termo Chirk significa atribuir parceiros à Allah, no Islam considerar outras divindades e autoridades além de Allah é um crime de politeísmo e idolatria - Allah é o único Deus verdadeiro. O cristianismo é considerado uma religião politeísta para o Islam devido à Santíssima Trindade &ndash Pai, Filho e Espírito Santo.



O Islam não pode ficar restrito apenas a fé confessional pessoal ou opcional, necessita ser ostensivo, ser notado publicamente. Se o muçulmano não se esforça publicamente para impor o islam, ele pode ser julgado como um hipócrita pelos seus pares, ou seja, um muçulmano por pura conveniência.



O muçulmano (mumin), o submisso, deve viver na Jihad. O termo jihad significa se esforçar para caminhar na senda de Allah, o caminho de Allah é estreito e árduo, e não bastam orações para trilhá-lo. É também necessário um esforço para conservar e expandir o Islam no mundo. Isto significa matar e morrer pelo Islam.



A jihad não é só um esforço diário e pessoal de cada muçulmano, ela também significa a propagação do islam pelos meios mais diversos. A própria guerra é parte constituinte da pregação islâmica, Dai, que é o esforço persuasivo ou &ldquopacífico&rdquo de expansão do islam. A pregação islâmica é considerada a continuação da guerra por meios psicológicos e culturais.



O Islam prega a necessidade de fazer a guerra psicológica e cultural &ndash a grande jihad (al-jihad al-akbar) - e a guerra militar &ndash a pequeno jihad (al-jihad al-asghar) - contra a barbárie (jahiliyyah) pela soberania (hakimiyyah) do Islam no mundo.

A religião, o Islam, foi revelado por Deus para não ser apenas uma fé confessional pessoal ou opcional, mas um regime de vida totalitário que deve estar presente em todas as dimensões da vida individual e coletiva. Sendo o conteúdo da sua revelação um conjunto de normas e códigos de conduta pessoal e social &ndash Allah é a única fonte de autoridade. A própria balança da justiça, as penas e recompensas, deve se orienta pela Sharia, a Lei de Deus.



No Islam as fontes sagradas são o Corão, a Sunnah e os hadiths nesta devida ordem. O livro sagrado do Islam é o Corão cujo o termo significa &ldquorecitação&rdquo é a própria palavra de Deus que foi revelada ao selo dos profetas, Muhammad, pelo anjo Gabriel. O Corão é o guia espiritual definitivo do monoteísmo abraâmico que corrigiu os erros e desvios dos livros anteriores, a Torá e os Evangelhos, sendo a última e definitiva revelação de Allah (Deus) para a humanidade. O Corão afirma a unicidade absoluta de Deus (Tawheed) e se considera a única fonte moral e intelectual da conduta pessoal e social do homem. O Corão é composto por 114 Suratas (capítulos).



Os hadiths são os ensinamentos, feitos e estilo de vida do profeta Muhammad que foram relatados pelos seus companheiros (Sahaba). A Sunnah é o conjunto de hadiths que são considerados oficiais, e por isto podem ser considerados como corpo de leis, servindo de fonte secundária para a Lei Islâmica (sharia), abaixo apenas do Corão.



Para a referência intelectual islâmica, Abdul Qadir Awdah (1906-1954), em seu texto, &ldquoO Islam entre seguidores ignorantes e estudiosos incapazes&rdquo.

&ldquoO princípio mais importante do Islam é aplicar suas leis e rituais, pois não há razão para o Islam existir a menos que as pessoas conheçam seus princípios, realizem seus rituais e cumpram suas leis. Consequentemente, aquele que negligencia o cumprimento da jurisprudência islâmica ou limita esse cumprimento está negligenciando e limitando o próprio Islam.&rdquo [AWDAH, 2011, p.171]



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