UM JURISTA PARA PRESIDENTE DA COLÔMBIA

 

Votarei no único rebelde

Eduardo Mackenzie

Em 11 de março votarei em Alejandro Ordóñez Maldonado na “consulta inter-partidária”. Ordóñez não é um político profissional. É um homem de leis, de códigos, um brilhante jurista, que chegou à vida política por imperativos patrióticos e por um agudo senso de dever moral.

Seu desempenho como presidente do Conselho de Estado, primeiro, e como Procurador Geral da Nação, depois, foi um exemplo de esmero e eficiência. E de determinação. Ele combateu com denodo, pondo sua vida em perigo, a corrupção administrativa. Levantou-se contra a pretensão das cortes internacionais de modificar as fronteiras da Colômbia. Lutou com êxito contra Piedad Córdoba, que utilizava sua investidura de senadora liberal para servir aos objetivos subversivos das FARC. Enquanto outros se limitavam a lançar frases, Ordóñez conseguiu sua inabilitação em uma batalha de direito que o país não deveria esquecer. Em seguida, batalhou com igual êxito contra o terrorista anistiado Gustavo Petro que, como prefeito, incorreu em ilegalidades por sua obsessão de fazer de Bogotá um laboratório de ensaio e um terreno de aplicação do arsenal teórico chavista. Os resultados dessa aventura foram padecidos por todos os bogotanos. Poucos esqueceram isso e a capital da Colômbia ainda não conseguir se recuperar desse período nefasto.

Dos sete ou oito candidatos à presidência da República da Colômbia, Alejandro Ordóñez é o único rebelde. Um rebelde não é um revolucionário, um destruidor cego e violento. Um rebelde, no sentido que Albert Camus dava a essa palavra, é alguém que se levanta contra a morte, a injustiça, a miséria, a utopia totalitária, para reformar a sociedade pela via da discussão, aceitando, ao mesmo tempo, que nosso ser, nossa humanidade, é limitada e fragmentada.

Camus escreveu um dia este parágrafo que deveria nos assombrar por sua pertinência ante a Colômbia de hoje. Cada palavra aqui nos interpela: “Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos já não são aqueles meninos desarmados que invocavam a desculpa do amor. São adultos e sua desculpa, pelo contrário, é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, inclusive para transformar os assassinos em juízes”.

Contra um estado de coisas inaceitável, contra esse clima de premeditação e de crime perfeito, Alejandro Ordóñez se pôs em movimento. O panorama de nossas misérias institucionais e políticas explica a radicalidade de seu compromisso político e de seu programa de governo.

Os atuais candidatos à presidência são de três tipos. Um primeiro conjunto quer a aplicação irrestrita dos acordos Santos-FARC. Os segundos procuram se acomodar a uma parte desses acordos. Um terceiro os quer abolir por completo. Estes últimos são os que têm claro o que são esses acordos e reconhecem a natureza pérfida e mortífera de suas cláusulas. Alejandro Ordóñez é o campeão desse grupo.

Os outros querem a continuidade de Santos. Alguns totalmente e outros parcialmente. Inclusive os que estavam contra o pactuado em Havana pelas costas da Colômbia, pedem agora que nos acomodemos a uma parte dessa construção letal. Alejandro Ordóñez pede a ruptura e compartilhar justiça, embora seja “transicional” e imperfeita, aos criminosos de guerra e de lesa-humanidade das FARC. Só os hipócritas podem aduzir que essa tese é “extremista”.

O objetivo declarado de Ordóñez é a reconstrução do Estado de Direito, a proteção da família e a luta contra as ideologias da morte. Ele quer um país onde se possam discutir todas as idéias e projetos, inclusive as concepções pessoais, políticas e religiosas do próprio chefe de Estado. Porém, dentro das vias do direito, e não voltar à perversão institucional de Santos: impor mudanças de sociedade centrais, como o matrimônio homossexual, pela via judicial, sem debate democrático no Congresso. Santos deixou que a Corte Constitucional legislasse e se arrogasse poderes abusivos, como o de impor à sociedade reformas sem deliberação.

Ordóñez é o único dos candidatos que defende as bandeiras que os colombianos levantaram heroicamente em 2 de outubro de 2016 no plebiscito nacional: não queremos os pactos de Havana. Esse mandato cidadão foi traído pelo governo e abandonado por alguns dos que advogavam pelo NÃO antes dessa votação histórica. Um deles diz que se ganhar a presidência só lhe faria “modificações em três ou quatro pontos” a essa capitulação infame, pois considera que o resto do acordo, ajustado com uma montanha de mentiras, é agora aceitável e o país deve se resignar a carregar esse fardo que destruirá o edifício democrático.

A falha teórica e política dos partidários da aceitação parcial dos pactos de Havana levará o país a um novo beco sem saída. Os que acreditam que com o fim do atual governo se arranjarão as coisas, se equivocam. Alejandro Ordóñez tem um discurso realista e firme frente a esse ponto capital. Ninguém pode falar de obter paz, reconstruir a economia, defender as liberdades, atrair capitais estrangeiros e avançar para a reconciliação interna, se aceitar tudo ou uma parte desse bloco de coerência anti-capitalista e anti-democrática que são os acordos de Havana.

Alejandro Ordóñez não está chamando à insurreição. Pede a sublevação moral do país, o voto para reconstruir o tecido institucional colombiano. Ele sabe que, como dizia Camus, “o rebelde recusa utilizar a violência a serviço de uma doutrina ou da razão de Estado, pois toda crise histórica termina processada por instituições”.

Tradução: Graça Salgueiro