AS CONFUSÕES POLÍTICAS DA DIREITA COLOMBIANA

 

O que a cúpula de Barranquilla revela

Eduardo Mackenzie

A “cúpula” de Barranquilla, entre os ex-presidentes Álvaro Uribe e Andrés Pastrana, e os candidatos presidenciais da direita, terminou em um novo impasse. Eles e os meios de comunicação haviam dito que essa reunião “salvaria a coalizão do NÃO”. Não parece que tenha saído dali salvação alguma. Saiu sim, um comunicado de 10 linhas, muito pouco comunicante: um comunicado pessoal de Marta Lucía Ramírez, não da “cúpula”.

A ex-ministra Ramírez dá a entender (a redação é sumária) que a discussão girou em torno de um ponto técnico: o modo de eleição do candidato presidencial dessa coalizão. A aspirante conservadora à candidatura presidencial insistia até ontem que esse cargo devia ser defendido por uma pesquisa de opinião. Agora diz que estaria disposta a aceitar o método da “consulta popular”, quer dizer, mediante o voto dos cidadãos na eleição legislativa de março próximo.

Esse ponto técnico jamais foi a linha divisória entre os que aspiram a dirigir “a grande coalizão que salvará a Colômbia”. O que põe em perigo uma coalizão dessa natureza é um tema político central: que atitude deve ter a ou o candidato presidencial e a ou o candidato à vice-presidência frente aos acordos de Havana e quais são as definições que essa coalizão deve defender sobre os temas políticos principais do país.

Sobre essa temática não discutiram nada. Nem o texto de Marta Lucía Ramírez nem as notas da imprensa dizem uma palavra a respeito.

Nem sequer sobre o ponto técnico houve sentença definitiva: subsiste a possibilidade de que Ramírez volte a pôr sobre o tapete sua idéia da pesquisa. A decisão definitiva, diz a candidata, terá que ser tomada “antes de 20 de janeiro”. Os dialogantes voltaram assim ao ponto que existia antes do encontro em Barranquilla.

A pior anomalia dessa “cúpula” foi obviamente a não-presença do ex-procurador e candidato presidencial Alejandro Ordóñez. Segundo minhas informações, Ordóñez não foi convidado para essa cúpula. Pior, ele foi desconvidado. O presidente Uribe queria que ele assistisse à reunião, pois manifestou que a presença do ex-procurador na coalizão era sim indispensável. Porém, Andrés Pastrana impôs sua vontade. Ele disse a Uribe: “Se Ordóñez for, eu não vou”.

A ausência de Ordóñez talvez tenha confortado Pastrana, porém impediu que a negociação avançasse. Já é tempo de que o ex-presidente baixe um pouco seus excessos de mal humor que tanto dano estão fazendo a construção da aliança dos setores que triunfaram no plebiscito nacional de 2016. Ou o que Pastrana quer é dar a entender que essa coalizão é impossível?

O autoritarismo do ex-presidente, que assume poses de dono de uma empresa política que não dirige e que não existe, é um pouco ridículo. Quem na realidade é Andrés Pastrana? É o presidente de um partido? É um parlamentar? É um grande líder de opinião? É um grande jornalista? É uma alta autoridade moral? Não. Ele é um ex-presidente. Quem o mandou para dirigir a coalizão do NÃO? Ninguém. Mesmo assim, ante tal precariedade, Pastrana consegue vetar a quem lhe dá na telha da coalizão e até agora conseguiu impor ao ex-presidente Uribe suas quatro vontades. Isso não é grotesco?

O pior é que ele trata de esconder da opinião pública os motivos de sua rixa irracional contra Alejandro Ordóñez. Por que Pastrana não explicita de uma vez por todas seus motivos? Que diabos é o que ele reprova em Ordóñez? Como Pastrana pode aparecer como arquiteto - com o senador Álvaro Uribe - da coalizão, tendo tão violentos ressentimentos contra um dos principais candidatos presidenciais do campo do NÃO? Com seu caráter inflexível e pouco ameno Pastrana pode continuar tendo um papel nessa construção?

Os jornalistas, em vez de sair com idéias claras sobre a situação da “coalizão da direita”, não puderam senão reutilizar os argumentos de costume: que “o grupo político de Andrés Pastrana” acredita que contra o ex-procurador correm “investigações penais e disciplinares” e que por isso “não aceitam sua participação na aliança”.

Que peso tem esse argumento? Parece ser uma desculpa torpe. Pastrana por acaso ignora o que é a presunção de inocência? Uma investigação é a mesma coisa que uma condenação? Ignora, sobretudo, que as “investigações” contra o ex-procurador são artifícios, pleitos rituais, gestos de cólera de gente sancionada que todo ex-procurador sofre?

A ojeriza de Pastrana talvez tenha meios psicológicos inesperados. Ordóñez não é o líder político que lhe mostra, como através de um espelho, as convicções conservadoras sempre tão vigentes e inovadoras porém que ele abandonou há tempo para se acomodar ao ar do tempo?

No dia seguinte à cúpula, OK Diario, um periódico espanhol, publicou uma entrevista com Andrés Pastrana onde ele é qualificado domo “líder do Partido Conservador” e membro de uma “Coalizão Desperta” (?). Lá o ex-presidente diz: “O que o próximo presidente da Colômbia tem que fazer é interpretar os sentimentos dos colombianos em tudo o que tem a ver, por exemplo, com o processo de paz. É necessário ajustar os acordos que devem ser feitos para obter uma verdadeira paz na Colômbia, uma paz duradoura. Esse será o maior desafio”.

“Ajustar os acordos” é, pois, a linha de Pastrana. Ele não fala de retirar, nem de modificar esses acordos. Ele só quer “ajustá-los”. Em outras palavras, Pastrana adotou finalmente a linha de Iván Duque sobre os acordos de Havana. Como um líder que diz representar o que os colombianos votaram em 2 de outubro de 2016 pode ter essa orientação? Os colombianos rechaçaram os acordos em sua integralidade. “Ajustá-los”, quer dizer, impô-los mediante jogos cosméticos, é trair o eleitorado, traí-lo uma segunda vez. A primeira foi a traição de Juan Manuel Santos, que desconheceu o votado e impôs à força sua claudicação ante as FARC. A segunda vez correrá por conta desta gente que quer conservar os acordos e só “ajustar” alguns pontos.

Isso explica provavelmente a histeria de Pastrana e de Duque contra Alejandro Ordóñez, que defende uma linha diferente: fazer valer no próximo quatriênio o que os colombianos decidiram no plebiscito nacional de 2016.

Assim vai, pois, a “grande coalizão que salvará a Colômbia”. Quando não é a troika de senadores iracundos que pretendem repartir os postos da chapa presidencial, sem ser mandatados por ninguém, quando esses mesmos personagens a empreendem, com ataques e admoestações infundadas, contra Oscar Iván Zuluaga, o ex-candidato presidencial do Centro Democrático em 2014, e contra a candidata uribista ao senado María Fernanda Cabal que pedem o respeito pelo votado no plebiscito, é o ex-presidente Andrés Pastrana com sua curiosa idéia dos “acordos de paz” que lança manobras a torto e a direito para tratar de decapitar o candidato Alejandro Ordóñez porque não pensa o processo colombiano como ele. Presidente Uribe: é assim, em semelhante anarquia, como se se faz o maior esforço para ajudar a Colômbia a sair do pesadelo atual?


Tradução: Graça Salgueiro