HOMENAGEM A ROBERTO CAMPOS

 

ROBERTO CAMPOS

Jacy de Souza Mendonça


No dia 17 deste mês ele faria 100 anos. Quando cessou suas atividades no Congresso Nacional, tive a oportunidade de participar de uma homenagem que lhe foi prestada, ocasião em que lhe dirigi as seguintes palavras:

O Presidente do IDORT (Instituto de Organização Racional do Trabalho), Laerte Setúbal Filho, certamente não avaliou a extraordinária honra com que me regalava ao designar-me para representar a entidade neste ato. Por ela ser-lhe-ei sempre muito grato. ROBERTO CAMPOS irradia de tal forma seus méritos e qualidades sobre os que o rodeiam que homenageá-lo é, na verdade, ser homenageado.

Mas preciso reconhecer de público (apesar de minha discordância pessoal) que, para muitos, ele tem alguns defeitos insuportáveis.

Em primeiro lugar, sua inteligência. Não é culpa dele, eu sei, pois foi a generosidade amazônica (ou mato-grossense) do Criador que assim o distinguiu tanto de seus semelhantes. Acontece que, se alguns, como nós, admiram, reverenciam e procuram até se beneficiar com as qualidades das pessoas inteligentes, há aqueles que, vitimados pela inveja, preferem abafar, ofuscar, silenciar os homens inteligentes.

Em segundo lugar, sua cultura. Aqui já a culpa é dele mesmo. Não desprezou o que Deus lhe deu. Ao contrário, usou sua prodigiosa inteligência para estudar, para pensar, para criar no mundo das ideias. Isso não é bem-visto pelos preguiçosos mentais, que se contentam em repetir, sem reflexão, aquilo que ouviram dos outros. Se alguém ousa pensar com autonomia, perturba a tranquilidade dessas mentes acomodadas.

Em terceiro lugar, sua ética pessoal, que o leva a dizer, com a máxima clareza, sinceridade, intransigência e objetividade, a plena verdade, que tanto desagrada a tantos, principalmente no ambiente dos homens públicos que frequenta.

Mais do que isso, sua agressividade, a forma dura como expõe e defende suas ideias. Embora nunca ataque as pessoas que sustentam as ideias que contesta, embora se concentre com extrema coerência, rigorosa dialética e intransigente argumentação na análise crítica e no debate objetivo dessas ideias, nem todos têm a necessária sagacidade e a suficiente isenção para perceber isso e muitas vezes tomam como agravo pessoal o que não passa de debate lógico, que visa apenas alcançar o mundo paradisíaco da verdade.

Além disso, ROBERTO CAMPOS é humildemente corajoso, ou seja, tem a ousadia de expressar com simplicidade suas ideias, o que choca o pernosticismo daqueles que, não tendo ideias a oferecer, ofertam orgulhosamente o vazio de suas próprias ignorâncias.

Pior do que tudo isso, ele dá testemunho, fala e escreve com a autoridade de quem viveu uma experiência, deixando seus opositores como que em um canto de ringue, sem a menor chance de contestação. No último meio século, teve o privilégio de participar como ator ou, ao menos, como testemunha, de quase todos os grandes acontecimentos do Brasil e do mundo. Não fala e escreve, por isso, com a insegurança de quem opina, mas com a certeza e a firmeza de quem informa. Pode acender uma lanterna na popa, que para nós se transforma em um farol de proa, indicando os melhores rumos a trilhar na vida.

Ele é precursor, não por algum extraordinário e inexplicável dom paranormal, mas porque, graças a essa inteligência, essa cultura e essa experiência, pode chegar às conclusões mais rápido do que a maioria. Lutar, por exemplo, pelo liberalismo quando a tendência mundial era estatizante, foi tomado por alguns como pré-visão, fenômeno que desagrada profundamente, principalmente aqueles que só entendem alguma coisa a posteriori, e assim mesmo após grande esforço e com profundo retardo.

Ele ama o Brasil. Em sua formação fundamental, o amor ao próximo teve papel destacado que, na vivência política, se transformou em real e verdadeiro patriotismo. As ideias que defende não são usadas para beneficiar sua pessoa, facilitar sua carreira ou conquistar prestígio e votos, nem mesmo para beneficiar qualquer grupo de interesses. São instrumentos para a realização do bem para todos os brasileiros. Mas isso não é bom para aqueles que empregam profissionalmente o discurso como máquina de enganar e esquema para tirar vantagens.

ROBERTO CAMPOS é um brasileiro diferente. Como todos os diferenciados, muitas vezes incompreendido. Sofre, certamente, com essas incompreensões, mas sofre muito mais pelos prejuízos que elas acarretam aos brasileiros do que pelos desencantos e prejuízos pessoais que lhe infringem.

Sempre achei que, em vez de ser alvo de uma imagem emocional negativa, maliciosamente gerada por seus opositores políticos, sem qualquer fundamento racional, este brasileiro deveria ser objeto de homenagem em cada município do País, pois, se a lição que ele planta é de longa germinação, tem fecundidade tal que alimenta nossa esperança de dias melhores.

Cumprindo o que entende ser sua contribuição para essa necessária reparação pública, o IDORT, alguns anos atrás, sentiu-se honrado ao indica-lo para integrar o quadro da Academia Internacional de Administração e hoje o destaca nesta homenagem pública, como inscreveu no pergaminho que lhe está sendo entregue, como expressão ímpar de agente renovador da cultura brasileira.

Minhas palavras, por outro lado, não ocultam certo sabor de desagravo e reparação, das quais eu sei que ele não necessita, mas que, estou certo, minha geração lhe deve.

Em nome do IDORT, em nome dos brasileiros de boa vontade, muito obrigado, Embaixador, Ministro, Senador, Deputado ROBERTO DE OLIVEIRA CAMPOS.